Sobre a dor (ou 2015)

Em 2015, até a praia ficou cinza...

Em 2015, até a praia ficou cinza…

Escrever é uma das melhores formas que encontrei de lidar com a dor. Tem sido assim desde a minha pré-adolescência, quando comecei a notar o poder – até então latente – que as palavras exerciam sobre mim. A fascinação por elas havia começado bem antes, ainda criança, quando descobri o prazer de ler. Porém, o domínio que as palavras exerciam sobre mim, por meio da escrita, revelou-se apenas alguns anos mais tarde.

Dito isso, certo é que, em 2015, eu deveria ter escrito (bem) mais. Ou, pra ser correto: em 2015, eu deveria ter escrito. Mas não escrevi… Nenhuma expressão da dor em palavras. O que é, no mínimo, estranho. Porque 2015 foi um ano em forma de agosto… Longo, interminável… “O eterno agosto”, escrevi por aí… E ruim, muito ruim.

E hoje, a nove longos dias do fim deste ano horrível, olhando para trás, percebo que talvez 2015 tivesse sido menos pesado se eu apenas houvesse escrito… Mas faltaram-me as palavras. Ou o tempo. Ou a disposição. 

Em 2015, infelizmente, dediquei-me a textos que não me deram prazer, a caminhos tortuosos, dos quais, apesar de necessários, não posso sentir orgulho. Mergulhei em ambientes danosos à alma. Repletos de mesquinhez, onde “tudo é vaidade…” Desperdício(s) de vida, de tempo, de motivação…

Mas, como nem tudo são espinhos, as vivências deste ano me permitiram enxergar, de forma bem mais clara, aquilo e aquele que não quero ser. A pessoa que não quero me tornar. E, a despeito de tanto desgosto, 2015 me permitiu a convivência com algumas maravilhosas pessoas que me carregaram (nos braços, mesmo!) para lugares dos quais eu jamais deveria ter saído. Pessoas que me permitiram enxergar a esperança e me levaram pra mais perto de onde quero estar, pra mais perto daquele que quero ser.

E, na ausência da minha própria escrita, pude me encontrar nas palavras d’Os Arrais, as que antecedem e as que fazem a canção “O Bilhete e o Trovão”:

“Esta é a melodia. A letra que surge quando nada pode ser dito. Quando as palavras não rimam com a vida. Quando as melhores intenções são esmagadas e destruídas. Quando os medos são maiores e mais numerosos que as promessas. Quando as certezas são engolidas num tenebroso mar de incertezas. Quando confrontados com o indivisível, seja a nossa canção, estrofe, ponte e refrão…”

E que 2016 “seja o que está por vir”…

 

Sobre o sumir das palavras

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

Às vezes as palavras somem. Como se tivessem, em sua estranhíssima liberdade, escolhido fugir e esconder-se de mim. São momentos difíceis. Momentos em que, na tentativa de me expressar, rabisco algumas linhas. Apenas para, alguns minutos depois, descartá-las, ao constatar sua insuficiência, sua ineficiência para traduzir em palavras, no papel, aquilo que sinto.

Em momentos como esse, sinto que as palavras brincam comigo. Enquanto as procuro, percebo que, muitas vezes, chego perto de achá-las… Porém, nesses momentos, acredito que elas correm e se escondem em outro lugar. Longe do meu alcance.

Difícil mesmo é aceitar quando isso acontece. Seria bem mais fácil a simples admissão temporária do fracasso. Mas não… Procuro, insisto, persisto. E, no fim, o resultado é o mesmo: desisto. Percebo-me incapaz.

Sem outra alternativa, fico esperando que elas, as palavras, se cansem do esconderijo em que estão e decidam vir me encontrar… Orando para que, antes do apagar das luzes, percebam que minha procura não é um mero capricho, mas fruto de uma necessidade…

Paciência! Ah, a paciência…

Sobre o ano passado

Foto: Alisson Tato

Foto: Alisson Tato

As linhas que escrevi do início até meados de 2012 não prometiam muito. Ou prometiam. Mas não aquilo que normalmente se espera: sorrisos, alegrias (mesmo que vazios de significação). Prometiam tristeza e dor. O cenário que a mim se apresentava era nublado demais, indicativo de um ano em que muito seria escrito. Nunca escondi que escrever, no meu caso – e, penso eu, no da maioria dos corajosos – é a forma que encontrei para lidar com a dor.

Mas, em 2012, não escrevi muito. E, não coincidentemente, pouca dor senti. Muito menos por não tê-la encontrado. Talvez por não ter lidado com ela da forma com que lidava até então. Não sei dizer exatamente o que mudou. Mas – é certo! – algo mudou. E muito. Aprendi, arrisco dizer, uma nova forma de olhar e de encarar a minha própria dor.

Antes de confundir qualquer um de vocês, amigos e leitores, explico-me: não deixei minha tristeza de lado. Nem sequer renunciei ao meu direito – irrevogável, vale frisar – de vivê-la como e quando quiser. Muito pelo contrário, consegui – talvez até acidentalmente – absorvê-la e transformá-la de várias outras formas.

No ano passado, com a tristeza, eu amadureci. Mais do que achei que seria possível. E, ao mesmo tempo, me permiti experiências que achava já estar velho demais para viver. Fui adulto e, ao mesmo tempo, criança. Não à toa nunca tive tanta consciência de ser delas, as crianças, o “Reino”. E, por isso mesmo, redescobri o valor e o sabor da amizade. Em faces antigas, já gravadas na memória e no coração, mas também em rostos novos, aliados a um novo olhar sobre a própria vida.

Dessa forma, meu 2012 se encerrou sem perspectivas prévias para 2013. Porque a vida, vou sempre crer, é feita no hoje. O chão da existência é/está aqui – e agora! Não gosto de fazer muitos planos. Minha vida está nas mãos do Eterno. A Ele confio toda a minha existência, todos os meus sonhos. E experimento, com gratidão, o imenso bem que isso me faz/traz.

Ao longo dos últimos anos, muita coisa mudou. Muito se transformou. Uma coisa, no entanto, permanece: minha entrega. Ao Eterno e àqueles que, por meio dele, se me achegam. E, em Amor, me fazem bem…

Isso é Graça! E continuará a ser. Sempre!

Sobre o valor das palavras

Imagem: Kleber Bassa

Muito me incomoda a subvalorização das letras em relação às imagens que se vê por aí. Para o diabo com aquela baboseira de “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Pode acontecer, mas isso é raro. Há imagens e imagens. Muitas não possuem o valor de uma letra sequer. E é isso o que quase sempre se vê por aí.

O Facebook é um exemplo. Todos os dias, a cada segundo, pessoas compartilham um tanto de imagens que poluem a nossa tela de informações, quase sempre irrelevantes. Claro que há exceções, mas o mau uso da potencialidade de publicar imagens acaba por evitar que tenhamos acesso ao que é bom. No meu caso, mais ainda, uma vez que de um tempo pra cá passei a cancelar a assinatura de qualquer pessoa que publique imagens que, de acordo com os meus critérios, seja desnecessária e/ou de mau gosto.

Sou um admirador das palavras. Desde criança gosto de ler. E hoje, mesmo com menor tempo pra dedicar à leitura, redescubro a cada possibilidade o tanto que é gostoso ler. Não apenas gostoso, mas uma fonte imensurável de aprendizado e conhecimento. Muita gente me pede dicas para aprender a escrever. Sempre dou uma: ler! Ser um bom escritor implica a experiência de ser um ávido leitor. Estudar as regras da gramática normativa não serve pra muita coisa. É preciso, antes de tudo, ler!

São raras as pessoas do meu círculo que também gostam de ler – e que leem. Essa triste constatação vem do fato de que são poucas também as que compartilham algum conteúdo bacana. Quase sempre é mais do mesmo: imagens, correntes e textos cuja autoria é atribuída a alguns autores que, em muitos dos casos, sofreriam se soubessem que aquilo que lhes é creditado.

Enquanto isso, sofro eu – com tanta besteira que, mesmo com os devidos filtros, sou obrigado a ver e ler por aí. Certo de que os que acreditam que “uma imagem vale mais do que mil palavras” nunca leram uma linha de Pessoa, Drummond, Dostoiévski, Saramago e García Márquez. Para citar apenas alguns dos tantos escritores que me ensinaram que nas palavras posso encontrar imagens e mundos que não são alcançáveis por meio de nenhuma outra forma neste mundo.

O novo contradição™

Há seis anos – no dia 5 de julho de 2006 – decidi criar um blog. Fiz uma conta no blogger, onde, até o mês passado, ficou hospedado o contradição™. O início era bem ruim, fraco, engessado. Mas, com o tempo, a qualidade, a meu ver, começou a subir, na mesma medida em que os textos se tornaram mais pessoais, carregados de mim mesmo. Como costumo dizer, mistura de intensidade e contradição.

Nunca me preocupei com a estética, mas no último ano decidi que queria mudar o layout. Tarefa com qual o Kleber decidiu se comprometer e cumprir com a qualidade característica de seu trabalho. Só vai entender o porquê dos pinguins quem já viu ou ouviu da minha paixão por eles. Meu quarto já não tem mais lugar para colocar os pinguins que compro e ganho. Foi um deles que Kleber usou no layout deste blog. Espero que a jovialidade que eles denotam agrade aqueles que sempre acharam o layout do contradição™ escuro e pesado.

Nessa reformulação, decidi dividir os textos em algumas seções. E devo ao tio Márcio uma das que mais gosto: “Em poesia”. O primeiro poema que escrevi na vida surgiu em uma madrugada de 2006. E ele ficou guardado, até o dia em que o meu tio o viu e fez uma comparação que considerei absurda, mas sincera. Disse que o poema lembrou-lhe o segundo poeta: Carlos Drummond de Andrade. Apesar de discordar do nível da comparação, o incentivo foi gás para que eu continuasse na tentativa de fazer poesia.

“Em prosa” resume tudo aquilo que é prosa e autoral. E agrega outras cinco subcategorias: minhas experiências com o Evangelho e a fé, foram dispostas na seção “Evangelho em prosa”. Em “Sobre o escrever” faço uso da metalinguagem para falar, por meio da escrita, sobre o próprio ato de escrever. Textos sobre esporte, política, reclamações de consumidor, entre outros, foram dispostos em “Diversos”. Em “Linhas desconexas” coloquei os escritos em que a minha contradição se torna mais evidente. “Meu tudo” traz aquilo que foi produzido por meio daqueles (e para aqueles) que fazem parte do seleto grupo de pessoas que constituem aquele que sou: família e amigos.

Alguns desses estarão presentes, a partir da próxima semana, em outra seção: “Outras vozes”. Nessa, têm destaque textos de outros autores. Para marcar a mudança, convidei nove amigos para contribuírem com suas produções, nas seguintes datas:

12/7 – Gabriela Vilaça – com quem tive a honra de trabalhar por alguns meses em 2008, tempo do qual resultou uma grande amizade. Ela expõe, em palavras, os sentimentos de uma forma única, que sempre revela um pouco também de mim. Leia aqui.

19/7 – Filipe Arêdes – exemplo das potencialidades da blogosfera. Nos conhecemos por meio dela, no início de 2008. Amigo que me propicia crescimento, por meio de suas ideias e de nossas divergências de opinião. Leia aqui.

27/7 – André Gonçalves – amigo que conheci em 2005, em um momento muito difícil. Desde então, temos aprendido a caminhar e a improvisar. Nossas vidas mudaram bastante, e a amizade e a parceria evoluíram, bem como nossa paixão pela literatura. Leia aqui.

2/8 – Alessandra Belmonte – estudamos juntos no Ensino Médio, em 2004, e desde então não nos distanciamos mais. Nossa amizade é maior que as diferenças e que as distâncias temporais às quais às vezes somos submetidos. Leia aqui.

10/8 – Rafaela Vitória – conheci a Rafa por meio do twitter, tentando casá-la com o Wendell (que encerrará esta série de publicações). O casamento não rolou, mas uma amizade, sim. Tive o privilégio de hospedá-la em minha casa durante alguns dias no início de 2011, dias que permanecem guardados na memória e no coração. Leia aqui.

(Atualização em 16/8/2012: os próximos textos serão atrasados em uma semana em relação à data anteriormente programada. Abaixo, já com as novas datas.)

23/8 – Renan Gomes – meu amigo manauara esteve em Belo Horizonte em janeiro de 2010. Em cinco encontros, uma forte amizade e o início da composição (ininterrupta) de uma linda canção. Leia aqui.

(Atualização em 27/9/2012: datas alteradas.)

27/9 – Everaldo Vilela – o Everaldo foi meu colega de turma de 2005 a 2008, na graduação em Jornalismo. Não conheço pessoa mais engajada politicamente que ele. Também são características dele o respeito pela opinião do próximo, o gosto por saltar de paraquedas e a paixão pelo Galo. Leia aqui.

12/12 – Henrique Willer – amigo-companheiro de caminhada, cujo cuidado me tem acompanhado desde 2007, com quem aprendo o respeito pela sacralidade do outro, com quem experimento a Graça de ser no Eterno. Leia aqui.

31/12 – Wendell dos Reis – para resumir, o Wendell é aquele que escreve mais coisas que eu leio e penso: como eu gostaria de ter escrito isso! Sou admirador da sua perspicácia no lidar com as palavras. Leia aqui.

Sejam bem-vindos à nova fase da minha renovada (e bem mais alegre e jovial) contradição!