Sobre a vida

IMG_0070

Esperando
Gabriela Tinoco

Passamos a vida esperando.
É clichê, eu sei. Mas, passamos a vida esperando, por mais clichê que seja.
Passamos a vida esperando que tudo que pareça clichê ou conto de fadas não seja.
Passamos a vida esperando que as coisas sejam fáceis como eram antes.
Passamos a vida esperando que nossas desavenças se resolvam, ou que pelo menos as esqueçamos.
Passamos a vida esperando a hora certa pra dizer eu te amo pra alguém, pra ligar, pra mandar uma mensagem.
Passamos a vida esperando que não tenhamos problemas de saúde.
Passamos a vida esperando ter coragem.
Passamos a vida esperando alguém que nos faça sentir especial.
Passamos a vida esperando que nossos amigos reconheçam o que fizemos, fazemos e sempre faremos por eles.
Passamos a vida esperando que ‘tudo volte a ser como era’.
Passamos a vida esperando que aquela história de amor seja nossa.
Passamos a vida esperando que alguém perceba que nos perdeu.
Passamos a vida esperando não perder ninguém.
Passamos a vida esperando não sofrer, e, se sofremos, passamos a vida esperando esquecer.
Passamos a vida esperando que os dias não sejam cinzas.
Passamos a vida esperando sucesso e tranquilidade financeira.
Passamos a vida esperando que nossos pais se orgulhem de nós por motivos reais.
Passamos a vida esperando o reencontro.
Passamos a vida esperando que ‘se coloquem no nosso lugar’, ou ‘vejam o meu lado’.
Passamos a vida esperando aquela palavra que não foi dita naquela ocasião.
Passamos a vida esperando aquele beijo perdido. Aquele abraço caloroso.
Passamos a vida esperando a justificativa do porquê alguém nos deixou.
Passamos a vida esperando que as pessoam sejam gentis. Que peçam desculpas.
Passamos a vida esperando que o outro não estrague nosso dia. Ou o trabalho. Ou a rotina.
Passamos a vida esperando. Esperando. Esperando.
Passamos a vida esperando o encanto da vida.
Estamos esperando a vida passar.

Amor, palavras, cegueira

Imagem: Kleber Bassa

Ilustração: Kleber Bassa

Para Hugo Rocha, que me ensinou tantas coisas, as quais não sou capaz de agradecer.

Ao Contradição, referência a todos nós, escritores; pois quem lê sabe reconhecer a importância de suas letras.

E, por fim, a todos nós: palavras delicadas e assustadoras, mas que estão aí e nos convidam. 

 

Somos – nós, os humanizados – todos cegos, vivendo em um mundo repleto de luzes. Luzes, estas, que não enxergamos; não sentimos e, mesmo que sentíssemos, não suportaríamos senti-las. Não importa, então.

Cegos de nascenças: chagados, de luzes apagadas, de mentes esquivadas do foco principal dessa vida, infundados, espantados. De corações apagados. De sentimentos secos (se é que há), de olhos molhados com lágrimas secas. E é tudo seco; permita-me, portanto, a redundância e o cacofonismo para este texto: sim, tudo está seco.

E em nós secou-se a vida.

Secamo-nos, sim. Desconhecemos o processo. Desconhecemos o princípio, tal qual tememos com todas as forças o anúncio do fim. Desconhecemos a vivência das coisas que um dia nos foram contadas, coisas boas, sobre memórias de tempos mais remotos e anteriores. E foram contadas e recontadas a todos nós, mas cegos estávamos e não sentimos. E, confusos com a rapidez do passar deste tempo e destas tantas e tamanhas memórias, refutamo-nos a nós mesmos. Ignoramos o potencial de vida (o sopro inicial de vida, dado a todos nós) e nos esquecemos.

Nossas almas foram e estão cegas. É tempo de tristeza, pois não vemos o trigo. Nem o pão.

Nossos corações estão cegos. E já não há tristeza mensurável a todas essas palavras.
Recuso, cego que sou, escritor que sou, este sentimento que me atormenta, em todo o tempo de pensamento, dizendo que é necessário que eu constate e escreva sobre todas essas coisas. É inválido enxergar, pois não de fato enxergo. É inútil sentir, pois sei que tudo o que chega ao meu coração não é tão pertinente – estou cego, afinal. É inútil. Se meu coração esteve feliz por um momento, me entristeço agora por perceber que não era pleno este momento e não era real essa felicidade.

Não se é feliz com a alma cega.

E diligentemente peço imensas desculpas a todos que me leem. Peço perdão pela minha repetição, constante, constante, constante. Peço desculpas pela minha insistência em falar do que não sei – tampouco saberei com estes olhos fechados. Isto é: peço desculpa a nós. Lanço estas palavras ao céu, com pouca esperança, já me arrependendo por tê-las lançado. Estou fadado ao paradoxo de escrever. Sinto que todas essas palavras são inúteis e perversas – e a perversão é cultivada pela cegueira. E novamente peço desculpas – a quem, sei lá, ao vento, talvez, a Deus, sei lá…

Vocês sabem…

Sobretudo (e isto é claro), arde a vontade de enxergar e entender esses tempos tão densos. Cansado, volto-me a palavras distantes, as quais eu entenderia se não estivesse nesta condição, palavras que me causam medo, espanto e repreensão:

“O que você quer que eu lhe faça?” “Senhor, eu quero ver”, respondeu ele.

Wendell dos Reis

Nono e, não por acaso, último convidado da série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™, completados em 2012. Escolhi também encerrar as atividades do contradição neste ano com o Wendell, cujas letras (quase) sempre poderiam ter sido escritas por mim. Isso sem qualquer sentimento de arrogância, mas apenas porque o Wendell consegue traduzir, como poucos, aquilo que penso e sinto.

As boas-novas do Reino

as-boas-novas

Ilustração: Kleber Bassa

 “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o Evangelho” (Lc 7:22)

Os cegos vêem. Nessa cura, passam a enxergar a realidade ao seu redor com outros olhos. Descobrem que, se os olhos deles forem bons, todo o corpo ficará bom. Doutro modo, aprendem que se os olhos forem maus, sejam fisicamente cegos ou não, todo o resto estará na obscuridade. Aprendem que para os puros, tudo é puro; para os impuros, nada é puro. São revolucionados pela Doçura do Amor, e assim procuram caminhar.

Sim, eles vêem.

Eles também se vêem. Enxergam-se em sua condição inescapavelmente maltrapilha. Descobrem que o mais nobre dos seus atos não passa de trapo de imundícia, diante da sublimidade do Evangelho. Mero esterco, nas palavras de Paulo.

Em se vendo, eles se desvencilham de qualquer postura judicativa em relação a outrem. São menos escandalizáveis. Lidam com pessoas, com gente.

Sabem quem são. E também vão fazendo tal descoberta processualmente, à medida que as escamas dos seus olhos vão caindo pela Graça do Eterno. Não querem mais fugir de si. Chamam suas sombras interiores pra conversar. “Puxa a cadeira, minh’alma”, como poetizou o querido Stênio Marcius.

Eles são vistos. Não buscando os mecanismos de visibilidade social, os famigerados “holofotes”, tão caros ao farisaísmo e ao status quo religioso.

Sabem que são vistos pelo Pai, e isso não os amedronta ou afugenta mais. Descobre que esse olhar “furioso” – leia-se intenso -, parafraseando Brennan Manning, é (de) Amor, Bondade e Misericórdia. A consciência de que a Misericórdia dEle dura para sempre penetra em seus corações como verdade insofismável, e isso os pacifica. Mesmo.

Os surdos ouvem. “As ovelhas reconhecem a sua voz, e seguem”. Simples assim.

Tornam-se mais dóceis, a começar pela escuta. Aprendem a ouvir. Têm prazer em fazê-lo. Sim, uma das descobertas mais preciosas desses outrora surdos é que o discípulo de Jesus é, inescapavelmente, “ensinável” e, para tanto, o Evangelho o convida a ser “escutável”. Escutar, ouvir não é um peso, uma tarefa: ele degusta, fazendo prazerosamente o que lhe ensinou Paulo: reter o que for bom.

Por “bom”, tais pessoas não traduzem por “conveniente”.

Sabem que o Evangelho freqüentemente lhes confronta, para que cresçam à estatura espiritual que lhes é proposta.

Experimentam as “doces consolações do Espírito”, mas não estão insensíveis nem refratários às “doces perturbações e provocações” do mesmo Espírito.

Em ouvindo, também deixam de ouvir. É fato. Aprendem que, mesmo surdos, ouviam muitas coisas que lhe fizeram Mal. Mesmo. Num dado momento da vida, muitos deles se sentem como gadarenos simbólicos, ouvindo multidões exteriores e, principalmente, interiores.

Vozes destoantes.

Esquizofrênicas.

Esquizofrenizadoras.

Mas ouviram A Voz, que cessa tal barulho, essa multidão enlouquecedora.

E valorizam o silêncio….

“Meus Deus, supostamente o que um surdo mais queria experimentar era ouvir, seja o barulho que for!”

Descobrem que nem sempre. Não dá para ouvir qualquer coisa.

É-lhes dado, por Graça e pelo Espírito, o discernimento de saber isso, e a possibilidade de não ficarem reféns de tais escutas, de tais memórias e vivências.

“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo”….

Nesse caminho interior, esses surdos, absurdados pela Voz do amor, também se ouvem.

Isso passa a fazer parte do cotidiano deles: ouvirem a si próprios. Sentirem-se. Isso os desneurotiza.

Muda inclusive seu modo e jeito de orar, outrora frenético, paranóico e acelerado.

São ouvidos. Algumas vezes, todo ouvidos. Valorizam os momentos de encontro com amigos, mas não fazem deles momentos logorréicos e verborrágicos, onde todos falam e ninguém ouve.

São, como bem diz o Léo Bueno, cuidadosos inclusive com a tendência de “banalização do tempo alheio”. Se o outro está aqui, e separou um tempo precioso para me ouvir, então não lidaremos com isso de forma leviana.

E descobrem a beleza de serem ouvidos por gente que outrora passava despercebida por eles.

Vão encontrando e descobrindo bons samaritanos na caminhada da vida, pois é lá que eles estão.

Os mudos falam. Falam porque sabem que não serão julgados entre os demais maltrapilhos, nem pelo Pai Eterno, que os ama com Amor igualmente Eterno.

Falam porque sabem que existem catarses absolutamente necessárias.

Ou falam, ou morrem. Por dentro, inclusive.

Ah, como é bom poder falar das minhas “pérolas existenciais” a maltrapilhos como eu, e não a caninos e suínos simbólicos! (Mt 7:6)

Aprendem também o silêncio voluntário. Sim, esse silêncio assume um “lugar” especial em seus corações. Nem sempre esse silêncio tem plena correspondência com o silêncio verbal, mas há momentos em que eles se coincidem. E os outrora mudos se alegram em tais momentos, e não abrem mão deles.

Os paralíticos andam. Movem-se. Sim, sabem que há “movimentos existenciais” que só podem ser tomados por eles mesmos, e não transferem pra ninguém a responsabilidade por suas escolhas, sejam equivocadas ou não. Não culpam ao Pai, ao diabo, à família, ao contexto social, à sua história de vida, ao mundo globalizado, ao cenário midiático ou quaisquer outras coisas do tipo.

Descobrem que a consciência da Graça nos conduz a viver com responsabilidade nesta vida.

Sua oração mais íntima e constante é: “que essa Maravilhosa Graça não seja vã em nossas vidas”.

São movidos. Se rendem ao convite, experimentando a mais genuína das conversões: “Sim Senhor”. Ponto. Pronto.

Co-movidos. Movidos pelo Espírito. Movimentados pelo Amor.

Fazem também os movimentos da alma. Interiores. Sutis, mas reais. As vezes profundamente dolorosos.

Peremptórios. Concretos.

Os leprosos são purificados. Sim, sentirem-se tocados sem asco, repulsa, nojo ou até mesmo medo lhes é algo balsâmico. Terapêutico até.

Alguns são literalmente curados de sua lepra. Coisas do Eterno…

Alguns continuam leprosos, mas agora conseguem caminhar com alegria, leveza e gratidão, sentindo-se incluídos entre outros leprosos.

Como sabiamente escreveu certa vez meu amigo Carlos Bregantim, o “Brega”, eles agora vivem disputando quem chega primeiro aos pés da Cruz….

Não têm outro Caminho a fazer….

Os mortos ressuscitam. São vivificados pelo Espírito.

É-lhes restaurado o encantamento do Evangelho.

Aprende, como sabiamente escreveu o Caio, que “morrer não é mau: viver mal é que é mau”.

Nesse processo, esses mortos agora fazem dos pequenos momentos da Vida, oportunidades de celebração e, principalmente, o Senhor dela, que nos concede esse Precioso Dom.

Aprendem, agora vivos, a ouvir as canções que tocam o coração;

A lerem bons livros;

Poesia.

Apreciam as diversas, ricas e belas manifestações artísticas e culturais, seja de que tipo e de onde forem.

Sentem-nas. Tocam e são tocados por elas.

E, em tudo isso, seus corações se enchem de alegria e gratidão ao Eterno.

“Reconhece-o em seus caminhos”…

Aos pobres anuncia-se o Evangelho.

Gosto muito da tradução da Bíblia em Linguagem Contemporânea a respeito deste trecho:

“Os marginalizados da terra ficam sabendo que Deus está do lado deles”.

Desnecessário tecer mais palavras.

Apesar de tantas notícias alarmantes, angustiantes e catastróficas, há também um mover do Eterno na Terra. Um convite.

Alguns têm discernido e atendido, cada um ao seu modo, a tal chamado….

Esperança

Henrique Willer

Mano-amigo muitíssimo querido, que me pastoreia junto ao Caminho, o oitavo e penúltimo convidado nesta série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™.