Tristeza e inspiração

Eustáquio e Du, meus pais, minha inspiração (Foto: Hugo Rafael Rocha)

Eustáquio e Du, meus pais, minha inspiração (Foto: Hugo Rafael Rocha)

Sinto vergonha quase sempre pelos evangélicos, tenho que confessar. E tenho vergonha, antes de tudo, porque um dia fui um. E não é vergonha pouca não, nem pra fazer um texto. É vergonha mesmo. Forte. Intensa. Que causa tristeza. Muita tristeza.

Desde sempre, a contar do momento em que nasci, tenho contato com a igreja evangélica e com seus fiéis, coisa que, mesmo com relutância em vários momentos, também fui. Minha melhor (e maior) referência de fé, junto aos meus pais, era/é minha avó materna, vovô Eclair. Esses três, na certa, são também dos poucos (pra não dizer únicos) que nunca vi falando mal das pessoas. E também, por isso, escolhi fazer deles meu referencial.

Infelizmente – e fico realmente triste e infeliz com isso – a maioria esmagadora dos evangélicos com quem convivi na vida sempre gostou de falar mal do próximo. Se não gostavam, pelo menos é o que sempre pareceu. Lembro-me triste do prazer – mórbido – de várias pessoas ao narrar histórias de “pecados” e humilhações alheias, arrematando com um “estou te contando para você orar por ele/ela”. Pura hipocrisia. Mentira. Falsidade. Coisa triste.

Talvez não à toa, os dois pastores que mais respeito hoje sejam aqueles sobre os quais ouvi, inúmeras vezes, críticas surgidas nas conversas dos meus familiares. Por isso, de certa forma, devo a eles muito da minha fé, já que esses dois homens tanto me influenciaram e influenciam até hoje, para o bem, na vida.

A despeito de todos os maus exemplos, no entanto, nunca escolhi encarar a “igreja evangélica” como sendo a representação da mentalidade de pessoas que apenas julgam e excluem o próximo de acordo com o seu próprio padrão moral e preconceituoso, não raramente justificado por meio do texto bíblico. Mesmo que o que é ruim salte mais aos olhos, aprendi a admirar os bons exemplos que a fé evangélica me deu, em especial os já citados acima: meus pais e minha avó materna.

Essas três pessoas especiais nunca foram de julgar o próximo, nem mesmo de apontar seus defeitos, condenando-os “em nome de Deus”. Da vida deles, recebi apenas uma inspiração: o serviço ao próximo, em respeito e em Amor. É por meio da vida deles que decidi enxergar o Evangelho, pelo exemplo de dedicação como filhos – aos seus pais – e também como pais – a nós, seus filhos. Meus pais, muitas vezes criticados por não se envolverem mais nos ambientes da religião, nunca se privaram de ajudar quem precisasse. Os outros, os religiosos, sempre foram mais de falar. Assim, neles, ao invés do Evangelho, enxergo apenas uma crença carente de uma vivência que a transforme em realidade e verdade. Esperança…

É com pessoas que sabem as artes do amor – e não da religiosidade – que quero conviver e aprender daqui por diante. Dos mestres da religião, infelizmente eu quero distância. Gostaria de ter mais paciência, mas não consigo mais suportá-los. “Como suportar o insuportável?”, já perguntou meu irmão Henrique, com quem faço coro. Independentemente de credo, independentemente de qualquer critério ou padrão moral, quero dividir tempo apenas com quem sabe amar. E, assim, na convivência, tentar aprender um pouco dessa complexa arte de servir e amar…

Sobre pinguins, diferenças e a amizade

Imagem: Kleber Bassa

Faz alguns anos que coleciono pinguins. O gosto pelos animais veio em 2006, ano em que foi lançado o filme Happy Feet, vencedor do Oscar, no ano seguinte, como melhor filme de animação. Fui assisti-lo ao lado do André, que, um tempo depois, me daria o primeiro pinguim – um Mano de pelúcia – do que se tornaria uma paixão.

Mano (ou Mumble, no original) é o protagonista da história de Happy Feet. Nela, sofre com a exclusão por ser diferente. Em meio a pinguins cuja vida é cantar, e que só encontram o amor por meio do canto, Mano é absurdamente desafinado. Mesmo após muitas tentativas, não consegue se adaptar e, assim, é excluído pelos demais.

Apesar de não saber cantar, Mano nasce com um dom não possuído pelos seus iguais: a dança, daí o nome happy feet (literalmente, pés felizes). O pinguim desafinado sabe mexer os pés e sapatear como ninguém mais. Porém, “isso não é coisa de pinguim”, lembra seu pai. Cegos pela ideia de que todos devem ser iguais, os pinguins que o cercam não percebem o ponto de união entre canto e dança: a música. Não veem que o talento de Mano poderia complementar o canto dos demais. O que tinha o potencial de unir acaba separando. Devido à incapacidade dos outros de enxergar um pouco além.

A história do filme não me atraiu à toa. Ela é um espelho da sociedade em que vivemos, onde, todos os dias, somos treinados a excluir o diferente. Daí as frequentes cenas de bullying e preconceito que presenciamos ainda hoje, em um país que se atribui o adjetivo tolerante quando se fala das diferenças. A verdade é que somos intolerantes mesmo e precisamos de um espelho, mesmo que uma animação sobre pinguins, para nos relevar aqueles que somos. O que é triste.

Mas, voltando à minha vida, faz um bom tempo que tenho lutado, comigo mesmo, para ser mais inclusivo, acolhedor em relação àquilo que me soa como ruim, apenas por ser diferente daquilo que eu considero ideal. E a amizade que construo com o André há cerca de oito anos é um dos maiores (e melhores) ensinamentos que encontrei na vida. É claro que temos muitas semelhanças, mas temos, principalmente, diferenças. Talvez, por isso mesmo, seja uma das amizades mais impactantes e importantes que possuo (e pela qual sou possuído) na vida. E um possuir sem qualquer neurose possessiva. Amizade sem pesos, sem datas, sem obrigações. Como, para mim, uma amizade deve ser – é!

Estar com o André é extremamente prazeroso. Nossas conversas incluem um sem-número de assuntos, os mais diversos que se pode imaginar. Nossos programas são inesquecíveis. Nossos gostos musicais, os filmes e séries que compartilhamos, os vinhos e cervejas que degustamos. Inúmeros aprendizados. Inúmeras alegrias. Muito amor. Muita alegria. Felicidade. Amizade. Sentimentos verdadeiros. Genuínos. Mesmo.

E isso só existe porque, um dia, ambos escolhemos olhar para além das diferenças e enxergar aquilo que nos poderia unir. Fruto do Eterno. Graça não-merecida, e intencionalmente redundante, em minha vida.

Coincidentemente, quando penso em Happy Feet, lembro que não sei dançar, coisa em que o André é anos-luz melhor que eu. Por outro lado, me arrisco cantando. Unidos por um mesmo som, uma mesma música

Aquilo que tem valor

Foto: Rafael Rocha

Não sou ligado a datas. Certo é que tenho facilidade para me lembrar delas, mas o importante, na verdade, é que não devoto a elas grande valor. Reconheço, até certo ponto, o papel dos ritos na hora de nos trazer à memória lembranças, mas considero que depender apenas de datas fixas para lembrar aquilo que é especial soa um tanto falso.

Por isso, nas coisas da vida, dou especial atenção ao percurso, ao como se caminha, e não apenas ao “como e onde se quer chegar”.

Alguns dizem por aí que “o importante não é como começa, é como termina”. Pra mim, essa é uma afirmação tola. O importante, na verdade, é como se caminha. Início e fim são dois pontos isolados na trajetória. A maior parte da vida se dá no caminho, na trilha que se percorre, rumo a nem sempre se sabe onde.

Dessa forma, mesmo tendo uma memória boa o suficiente para saber que dia as coisas começaram, prefiro me ater ao como elas se desenvolveram até então. Meu significado, meu sentido, meu amor, minha paixão… Tudo isso coloco no percurso, na estrada.

É por isso que presentear é algo que tem bastante significado pra mim. É uma coisa que me dá prazer. Ver algo que me lembra determinada pessoa, aliar o presente ao percurso que trilhamos juntos, comprar e entregar. Simples assim. Nada é mais prazeroso que ver, no olhar do outro, a resposta. A gratidão por saber que o que se comemora não é a data, um começo, um fim, mas aquilo que se dá a cada dia, na jornada.

Da mesma forma que um ano pode significar muita coisa, pode não significar nada. Vem daí o fato de eu me considerar velho, coisa que muitos não entendem. Vivo em um ano experiências que muita gente não vive em dez. Conheço sabores, prazeres e sensações que a maioria não consegue se não parar pra contar o tempo. Ah, o tempo… Coisa instável, efêmera, que tanto nos confunde.

Essa é uma das razões por que tento me esquecer do tempo e me apegar ao sabor da caminhada. E, nos momentos em que ela se torna cansativa, posso me lembrar do tanto de coisas que já vi(vi), do montante de sensações que já experimentei e que, em mim, se acumulam. É bom olhar para trás e não precisar do calendário para provar a verdade daquilo que vivo.

A verdade não está nas datas, está na caminhada. E nos corações daqueles que conseguem entender que, para quem reverencia o caminho, um dia é como um ano e um ano é como mil. E que o hoje é sempre a parte mais importante da trajetória. É apenas no hoje que podemos comemorar e reverenciar aquilo que existe.

O ontem já se foi, o amanhã ainda não existe e, se chegar, já não mais será. A melhor e mais importante data para comemorar, agradecer e reverenciar o prazer da caminhada é sempre hoje! Com ou sem presentes. Com períodos considerados humanamente completos ou não. Em datas tidas como especiais ou em datas feitas especiais. O que importa, na verdade, é… Ah, quem vive sempre sabe o que realmente tem valor!

O novo contradição™

Há seis anos – no dia 5 de julho de 2006 – decidi criar um blog. Fiz uma conta no blogger, onde, até o mês passado, ficou hospedado o contradição™. O início era bem ruim, fraco, engessado. Mas, com o tempo, a qualidade, a meu ver, começou a subir, na mesma medida em que os textos se tornaram mais pessoais, carregados de mim mesmo. Como costumo dizer, mistura de intensidade e contradição.

Nunca me preocupei com a estética, mas no último ano decidi que queria mudar o layout. Tarefa com qual o Kleber decidiu se comprometer e cumprir com a qualidade característica de seu trabalho. Só vai entender o porquê dos pinguins quem já viu ou ouviu da minha paixão por eles. Meu quarto já não tem mais lugar para colocar os pinguins que compro e ganho. Foi um deles que Kleber usou no layout deste blog. Espero que a jovialidade que eles denotam agrade aqueles que sempre acharam o layout do contradição™ escuro e pesado.

Nessa reformulação, decidi dividir os textos em algumas seções. E devo ao tio Márcio uma das que mais gosto: “Em poesia”. O primeiro poema que escrevi na vida surgiu em uma madrugada de 2006. E ele ficou guardado, até o dia em que o meu tio o viu e fez uma comparação que considerei absurda, mas sincera. Disse que o poema lembrou-lhe o segundo poeta: Carlos Drummond de Andrade. Apesar de discordar do nível da comparação, o incentivo foi gás para que eu continuasse na tentativa de fazer poesia.

“Em prosa” resume tudo aquilo que é prosa e autoral. E agrega outras cinco subcategorias: minhas experiências com o Evangelho e a fé, foram dispostas na seção “Evangelho em prosa”. Em “Sobre o escrever” faço uso da metalinguagem para falar, por meio da escrita, sobre o próprio ato de escrever. Textos sobre esporte, política, reclamações de consumidor, entre outros, foram dispostos em “Diversos”. Em “Linhas desconexas” coloquei os escritos em que a minha contradição se torna mais evidente. “Meu tudo” traz aquilo que foi produzido por meio daqueles (e para aqueles) que fazem parte do seleto grupo de pessoas que constituem aquele que sou: família e amigos.

Alguns desses estarão presentes, a partir da próxima semana, em outra seção: “Outras vozes”. Nessa, têm destaque textos de outros autores. Para marcar a mudança, convidei nove amigos para contribuírem com suas produções, nas seguintes datas:

12/7 – Gabriela Vilaça – com quem tive a honra de trabalhar por alguns meses em 2008, tempo do qual resultou uma grande amizade. Ela expõe, em palavras, os sentimentos de uma forma única, que sempre revela um pouco também de mim. Leia aqui.

19/7 – Filipe Arêdes – exemplo das potencialidades da blogosfera. Nos conhecemos por meio dela, no início de 2008. Amigo que me propicia crescimento, por meio de suas ideias e de nossas divergências de opinião. Leia aqui.

27/7 – André Gonçalves – amigo que conheci em 2005, em um momento muito difícil. Desde então, temos aprendido a caminhar e a improvisar. Nossas vidas mudaram bastante, e a amizade e a parceria evoluíram, bem como nossa paixão pela literatura. Leia aqui.

2/8 – Alessandra Belmonte – estudamos juntos no Ensino Médio, em 2004, e desde então não nos distanciamos mais. Nossa amizade é maior que as diferenças e que as distâncias temporais às quais às vezes somos submetidos. Leia aqui.

10/8 – Rafaela Vitória – conheci a Rafa por meio do twitter, tentando casá-la com o Wendell (que encerrará esta série de publicações). O casamento não rolou, mas uma amizade, sim. Tive o privilégio de hospedá-la em minha casa durante alguns dias no início de 2011, dias que permanecem guardados na memória e no coração. Leia aqui.

(Atualização em 16/8/2012: os próximos textos serão atrasados em uma semana em relação à data anteriormente programada. Abaixo, já com as novas datas.)

23/8 – Renan Gomes – meu amigo manauara esteve em Belo Horizonte em janeiro de 2010. Em cinco encontros, uma forte amizade e o início da composição (ininterrupta) de uma linda canção. Leia aqui.

(Atualização em 27/9/2012: datas alteradas.)

27/9 – Everaldo Vilela – o Everaldo foi meu colega de turma de 2005 a 2008, na graduação em Jornalismo. Não conheço pessoa mais engajada politicamente que ele. Também são características dele o respeito pela opinião do próximo, o gosto por saltar de paraquedas e a paixão pelo Galo. Leia aqui.

12/12 – Henrique Willer – amigo-companheiro de caminhada, cujo cuidado me tem acompanhado desde 2007, com quem aprendo o respeito pela sacralidade do outro, com quem experimento a Graça de ser no Eterno. Leia aqui.

31/12 – Wendell dos Reis – para resumir, o Wendell é aquele que escreve mais coisas que eu leio e penso: como eu gostaria de ter escrito isso! Sou admirador da sua perspicácia no lidar com as palavras. Leia aqui.

Sejam bem-vindos à nova fase da minha renovada (e bem mais alegre e jovial) contradição!

Sobre a minha mãe

Formatura em janeiro de 2009

Não achei que seria tão difícil escrever um texto sobre o “dia das mães”, até pensar em fazê-lo. Acho que é porque o que é precioso demais quase sempre se torna indescritível. No caso, falo da minha mãe. Não saberia falar das mães, numa forma geral. Falo no singular, porque só conheço uma mãe: a minha. Porque conhecer implica tempo, convivência. E, em 25 anos de vida, não convivi mais tempo com ninguém que com minha mãe. É ela quem mais se dedicou a mim desde antes de descobrir que eu estava ali, em seu ventre, esperando para vir à vida.

Nenhum ser-humano pode me amar tanto como ela, mãe. Essa ligação entre mãe e filho é uma coisa bem específica, única. O laço físico representado pelo cordão umbilical revela mais uma verdade sobre a ligação existente entre mãe e filho: dessa conexão depende a vida.

Não me lembro, mas ainda bebê passei alguns dias em coma, entre a vida e a morte. Mãe esteve ali, todos os dias. Com sua calma característica, não se desesperou. Ia ao hospital, orava e pedia ao Pai que me mantivesse aqui, junto a ela. Ele atendeu. E quem mais ganhou com isso fui eu: o privilégio e a graça de ser cuidado por uma mulher de tanto valor.

Com ela, tento aprender a não me desesperar. E confiar no cuidado do Pai por mim e por nós. Quanta tranquilidade em uma pessoa só. Eu, ao contrário dela, sempre agitado, nervoso, preocupado, ansioso. Nessas horas, com paciência, ela tenta me ensinar a descansar no Amor do Pai. Entregar-me aos braços dEle. E confiar.

Há tantas coisas que parecem bobas, e com a qual a gente se acostuma, mas que representam bem o amor de mãe por nós. No meu caso, sempre fui imensamente chato na hora de comer. E quem mais faria o que mãe faz por mim: preparar algo totalmente específico pra mim, diferente do prato servido a todos em um almoço? Quem mais me ouviria desesperado, ansioso e em seu olhar e seu abraço me faria descansar?

Nunca vou conseguir demonstrar com exatidão a importância dela pra mim. Jamais poderei retribuir com igualdade o sacrifício, a entrega, tudo o que ela já fez e ainda faz por mim. Minha relação será sempre de débito. O que me faz descansar é a certeza de que o que parte dela em relação a mim é Amor, Graça. Ela só espera que eu cresça, com sabedoria, e seja feliz. Mesmo quando discorda das minhas escolhas e decisões, se desdobra para tentar me compreender. A despeito das diferenças que nos separam… O Amor que nos une é muito mais forte.

E é assim que, em minha mãe, encontro todos os dias – e não apenas hoje, a data em que as mães são celebradas – a maior expressão humana do Amor do Pai por mim!