Sobre a ressurreição – e momentos que se tornam eternos

Sobre momentos que se tornam eternos

Sobre a ressurreição – e momentos que se tornam eternos

Nesta Semana Santa, compreendi de uma forma bem nova a mensagem da ressurreição. Foram dias em que a Esperança ressurgiu em mim. Tomou conta do meu coração, renovou-o. Nesses dias que antecederam a Páscoa, o Eterno renasceu em mim. No encontro. Mais que encontro, na verdade: reencontro. Há coisas que, verdadeiramente, apenas o coração compreende.

Por meio de laços de Amor humano, um renascimento se deu em mim. Braços, abraços, risos, lágrimas, laços. Fui atraído. Sinceridade, verdade. Ouvi. Senti. Conheci e – ao mesmo tempo – reencontrei.

Esperança. Renascimento. Em mim. Em nós. Páscoa. Por meio de nós. Sacrifício. Ressurreição. Por nós.

Gratidão. Em mim!

Ao Eterno, a quem me atraiu…

Sobre quem eu não sou

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

Se há uma música que hoje – e já há algum tempo, até mesmo antes de eu conhecê-la – me representa é a canção ‘Esperança’, composição de André e Tiago Arrais (Você pode ouvi-la aqui). Não por acaso, esperança também é uma das palavras que mais admiro na língua portuguesa.

Tal como a personagem da canção acima citada, por vezes tenho sentido na pele o quão miserável sou. E, quanto a isso, já sou convicto e dispenso toda e qualquer palavra de ajuda e/ou incentivo que alguns teimam em dizer quando me expresso assim, demonstrando claramente que pouco me conhecem. Ou, talvez, que não aceitam aquele que sou. Sou assim, sem arrependimento, sem culpas.

Com esperança, no entanto… Mas qual esperança, alguns podem perguntar? Esperança que, no Eterno, posso ter, uma vez mais, o pão que outrora, quando sobrava, ainda era meu. E hoje não mais é… Minha fé, no entanto, é esta: “no desapontamento, a esperança nasce!” Assim, minha perspectiva, tal qual a do homem da canção dos irmãos Arrais, é a de viver o presente, independentemente do que passou. Porque, penso eu, de nada adianta lamentar-me pelo que passou. A parte do passado que não me orgulha deve servir unica e exclusivamente para me fazer caminhar de encontro Àquilo que almejo. Algo mais nobre, mais alto que eu…

Quando vejo que tudo mudou, muitas coisas para melhor, mas algumas, no entanto, para pior, acredito que a parte que me cabe é deixar para trás, no passado, o homem que fui, bem como todas as construções que ele edificou longe dAquele em quem deposito minha esperança e fé. “Se tudo mudou, eu abro as velas da embarcação. Na esperança que pela manhã, avistarei o porto onde te encontrarei…”

Busco desde que nasci. E nunca parei de buscar. Nem quero.

Não sei ainda exatamente o homem que quero ser. Mas, dia após dia, tenho mais convicção e certeza a respeito daquele que fui e não quero mais ser e também daquele que, apesar de nunca ter sido, sei bem que nem de longe almejo ser.

No momento, as noites nem sempre são bem dormidas. Como numa fuga, nadando na incerteza. Uma quietude que nem sempre revela paz e descanso. Confiante, porém, que após noites mal dormidas também me esperam dias em que a alegria se faz Luz.

Quando a tempestade me alcançar no Caminho – e sei que alcançará em muitos momentos – e o barco naufragar, quero apenas despertar numa terra firme. Junto ao Amor, em quem eu sou!

Tristeza e inspiração

Eustáquio e Du, meus pais, minha inspiração (Foto: Hugo Rafael Rocha)

Eustáquio e Du, meus pais, minha inspiração (Foto: Hugo Rafael Rocha)

Sinto vergonha quase sempre pelos evangélicos, tenho que confessar. E tenho vergonha, antes de tudo, porque um dia fui um. E não é vergonha pouca não, nem pra fazer um texto. É vergonha mesmo. Forte. Intensa. Que causa tristeza. Muita tristeza.

Desde sempre, a contar do momento em que nasci, tenho contato com a igreja evangélica e com seus fiéis, coisa que, mesmo com relutância em vários momentos, também fui. Minha melhor (e maior) referência de fé, junto aos meus pais, era/é minha avó materna, vovô Eclair. Esses três, na certa, são também dos poucos (pra não dizer únicos) que nunca vi falando mal das pessoas. E também, por isso, escolhi fazer deles meu referencial.

Infelizmente – e fico realmente triste e infeliz com isso – a maioria esmagadora dos evangélicos com quem convivi na vida sempre gostou de falar mal do próximo. Se não gostavam, pelo menos é o que sempre pareceu. Lembro-me triste do prazer – mórbido – de várias pessoas ao narrar histórias de “pecados” e humilhações alheias, arrematando com um “estou te contando para você orar por ele/ela”. Pura hipocrisia. Mentira. Falsidade. Coisa triste.

Talvez não à toa, os dois pastores que mais respeito hoje sejam aqueles sobre os quais ouvi, inúmeras vezes, críticas surgidas nas conversas dos meus familiares. Por isso, de certa forma, devo a eles muito da minha fé, já que esses dois homens tanto me influenciaram e influenciam até hoje, para o bem, na vida.

A despeito de todos os maus exemplos, no entanto, nunca escolhi encarar a “igreja evangélica” como sendo a representação da mentalidade de pessoas que apenas julgam e excluem o próximo de acordo com o seu próprio padrão moral e preconceituoso, não raramente justificado por meio do texto bíblico. Mesmo que o que é ruim salte mais aos olhos, aprendi a admirar os bons exemplos que a fé evangélica me deu, em especial os já citados acima: meus pais e minha avó materna.

Essas três pessoas especiais nunca foram de julgar o próximo, nem mesmo de apontar seus defeitos, condenando-os “em nome de Deus”. Da vida deles, recebi apenas uma inspiração: o serviço ao próximo, em respeito e em Amor. É por meio da vida deles que decidi enxergar o Evangelho, pelo exemplo de dedicação como filhos – aos seus pais – e também como pais – a nós, seus filhos. Meus pais, muitas vezes criticados por não se envolverem mais nos ambientes da religião, nunca se privaram de ajudar quem precisasse. Os outros, os religiosos, sempre foram mais de falar. Assim, neles, ao invés do Evangelho, enxergo apenas uma crença carente de uma vivência que a transforme em realidade e verdade. Esperança…

É com pessoas que sabem as artes do amor – e não da religiosidade – que quero conviver e aprender daqui por diante. Dos mestres da religião, infelizmente eu quero distância. Gostaria de ter mais paciência, mas não consigo mais suportá-los. “Como suportar o insuportável?”, já perguntou meu irmão Henrique, com quem faço coro. Independentemente de credo, independentemente de qualquer critério ou padrão moral, quero dividir tempo apenas com quem sabe amar. E, assim, na convivência, tentar aprender um pouco dessa complexa arte de servir e amar…

Sobre a necessidade de viver

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

Viver não é fácil nem nunca será. Por isso, o importante, o que é crucial mesmo, é se acostumar. E com ‘acostumar ‘nem de longe procuro sugerir uma postura de acomodação e/ou passividade diante da vida. O que defendo mesmo é o aprendizado e o desafio diário de lidar com as surpresas – nem sempre agradáveis – que a vida traz.

Decidi, de uns tempos pra cá, ser menos pessimista. Quero também reclamar bem menos. Não sei se tenho conseguido e, às vezes, acho até que sou incapaz. Quando olho para o lado e vejo alguém com um problema infinitas vezes maior que o meu, calado, sorrindo e, muitas vezes, grato, sinto-me envergonhado apenas pela minha intenção – nem sempre concretizada – de reclamar.

Curioso que onde trabalho, por exemplo, raramente vejo reclamando da vida as pessoas que ocupam cargos que, em nossa sociedade, são tidos como inferiores (e, por isso mesmo, são muito mais mal remunerados). Pra ser mais direto, a verdade é que, normalmente, reclama mais da vida quem tem mais dinheiro. E falo aqui de dinheiro porque, numa sociedade capitalista, é ele quem acaba por tomar o centro das nossas vidas, visto como solucionador de problemas.

Não vou usar aqui aquele velho clichê de que “dinheiro não traz felicidade”, mas a verdade é que, por sermos naturalmente ambiciosos, quanto mais temos, mais queremos. E, por isso mesmo, quem mais tem está sempre mais insatisfeito com o que tem e, dessa forma, transfere a insatisfação também para a vida. E, talvez, por isso, escolha ter também mais problemas. E deles reclamar…

Lembro-me de um Alguém que sugeriu que não ficássemos ansiosos por nada na vida: “não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”. Mesmo assim, o que fazemos quase sempre, motivados pela ansiedade, é antecipar para o dia de hoje a angústia e a dor por todos os males que ainda estão por vir – e que, caso não antecipássemos, poderiam nem sequer aparecer.

Em minha alma, algumas perguntas Eternas permanecem: “não é a vida mais importante do que a comida, e o corpo mais importante do que a roupa”?

Talvez seja hora de nos ocuparmos mais com a tarefa de viver. Quanto a mim, quero aprender com as aves a tarefa de voar e descansar, sem me preocupar com o amanhã. Enquanto ainda há tempo… enquanto ainda há amanhã…

Vida em mim

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

O Evangelho é a história mais linda do Universo. Disso não tenho qualquer dúvida. E, quando falo de Evangelho, não me refiro a nenhuma religião, nem mesmo a alguma filosofia ou forma de pensamento. Ao invés de tentar defini-lo, prefiro me dedicar à tarefa de tentar vivê-lo – com integridade e verdade. O que não é fácil, tenho que assumir. A despeito disso, é o Evangelho o bem mais precioso que possuo (ou, pra dizer melhor, que me possui) na Vida. E sua beleza, entre tantas coisas, para mim reside também no fato de a sua mensagem ser mais forte que as gaiolas e cercas às quais tentam submetê-lo.

Evangelho e vida. Talvez vida seja a palavra que mais se aproxime daquilo que penso e sinto ao ser confrontado com o Evangelho. Vida como fruto. Vida como consequência. Vida, a despeito da morte. É por isso que não consigo enxergar qualquer sentido quando vejo algo que, sob o rótulo de ser o Evangelho, suprime qualquer possibilidade de paz, compaixão e, para além disso, tem o potencial de provocar apenas dor e morte. Disso, apenas me afasto.

Não me envergonho da minha fé. Para ser bem sincero, talvez seja uma das poucas coisas que eu tenha para me orgulhar. E longe de ser um orgulho soberbo, que me traga algum ar de superioridade em relação aos que pensam diferente de mim. Muito pelo contrário, esse orgulho de que falo é algo que me traz apenas alegria e paz. Alegria que me ajuda a manter a esperança, e paz para prosseguir, em meio a circunstâncias que só trazem vontade de jogar a toalha, cruzar os braços e esperar, de forma condescendente, a vida passar. Mas não consigo ser, da existência, um mero espectador. Tenho compromisso com a vida.

O Evangelho me faz viver. Crer em um Deus que me isola dos problemas e dificuldades neste mundo nunca me foi atrativo, convincente. Sempre enxerguei tal “blindagem” de forma crítica, condição meramente ilusória. Como amar um Deus que, em meio a tragédias, elege apenas uns poucos para salvar? Não entendo aqueles que conseguem conceber um deus assim. Nos momentos de dor (ou não), prefiro entregar-me a um Deus que também chora, e me consola, em puro Amor. Diante da atrocidade, demonstra respeito aquele que cala – e chora!

É por isso que creio no Eterno. O único que, na história, foi capaz de inverter o significado de justiça, ao oferecer-se, antes da fundação daquilo que conheço como mundo, como sacrifício no lugar dos criminosos da Terra, em meu lugar. Sofrendo em si mesmo as dores da humanidade. E é nesse Eterno que me refugio na hora que não compreendo os rumos da existência, certo de que sua compreensão e Amor permanecem em mim. Amor que subverte a concepção humana de Justiça, afastando-a, de uma vez por todas, do ideal humano de punição.

Evangelho. Amor. Vida. É esse o meu legado. É essa a minha vida. E se caso amanhã eu não mais aqui estiver, descanso na certeza de que o dia importante é apenas o hoje, quando o Eterno se faz vida em mim. Através de mim. E vive em nós…