Sobre a Ana Paula Valadão

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Crédito: Diante do Trono / Divulgação

“Vem, filho amado, vem, como estás…” Esse trecho de uma das minhas canções – hoje, estranhamente, ainda – preferidas nunca sairá do meu coração. E, com ele, a gratidão e o respeito à Ana Paula Valadão, sentimento muitas vezes incompreendido por aqueles que chegaram depois e que hoje me cercam. A canção em questão é Nos braços do Pai, tema do quinto trabalho ao vivo do Diante do Trono, que reuniu 1,2 milhões de pessoas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em 2002.

“Lembro-me como se fosse ontem” talvez seja o clichê ideal para expressar o que sinto a respeito dessa canção. Eu tinha 16 anos e já convivia há muitos desses anos com inúmeros complexos e outras muitas incertezas a respeito de quem eu era. Acostumado a ouvir, no ambiente religioso em que cresci, dezenas cobranças para que eu fosse melhor, mais digno e mais merecedor (nunca entendi exatamente do quê), incomodava-me a certeza de que havia limites em mim que eu não jamais vencer. A dor era diária, bem como as lágrimas, a tristeza e a culpa.

Até que ouvi, em Nos braços do Pai, por meio da voz da Ana Paula Valadão, aquilo que, na época, apresentava-se como um convite: “vem, filho amado, vem, em meus braços, descansar…” Naquele dia, a voz dela tornou-se uma das mais belas e admiradas por mim. Coisa que só algo que eu mesmo desconheço pode explicar. Mas, muito mais do que isso, senti-me, pela primeira vez incluído e, o que é bem mais forte, amado por um Deus-Pai, que me convidava a me aproximar dele do jeito eu estava, como eu era, e apenas descansar.

O contexto é importante. Em 2002, Ana Paula Valadão surgia como um expoente entre os evangélicos, era reconhecida e admirada por muitos, inclusive nos ambientes nos quais eu vivia. Mas o que ela cantava trazia algo diferente e que eu ainda não havia conhecido: um Deus que é pai, o Amor Encarnado. Sim, até a minha adolescência eu havia sido apresentado a um deus que cobra, que pune, que exclui aqueles que não se adaptam às suas normas (escritas por algum homem intolerante). Deus que, hoje, não faz parte da minha vida.

Daquele dia em diante, minha relação com o Eterno mudou totalmente. Ele era meu Pai. E eu não precisava mais verificar cada fraqueza e limite antes de me aproximar dele. Não era preciso mais esconder e mascarar aquele que eu era. Nem mesmo fingir ser capaz daquilo que eu não era capaz. Bastava que eu me aproximasse, que recebesse, de graça, o Amor de um Deus que havia escolhido me amar.

Não deixei naquele dia de ter dúvidas, questionamentos, inseguranças, dores, problemas, angústias e tudo o mais… As circunstâncias da vida não se alteraram. Naquele dia, mudou apenas, se é que o “apenas” aqui cabe (pela profundidade do que isso significou na minha história de vida), a minha relação com Deus. E, com isso, toda a minha forma de encarar a vida. Em meio a todas as dificuldades, eu não precisava mais me apresentar forte, confiante, enquanto desmoronava por dentro. Muito pelo contrário, podia entregar todas as minhas dúvidas e inseguranças nas mãos daquele do Eterno, que me amava e me lançava em seus braços de Amor.

Hoje, não sou mais aquele garoto inseguro! Sou muito diferente. Evoluí com o tempo, com as experiências, com os sabores e dissabores da vida. Hoje, mais de 15 anos depois, muita coisa mudou. Nesse meio período, abandonei a igreja evangélica. Sem traumas. Apenas consciente de que aquela experiência não mais me servia ou cabia em mim. Minha fé, minhas convicções hoje são outras. E não faço muita questão de explicá-las.

E embora soe contraditório, até mesmo para mim, em todos os momentos de dor, ainda recorro aos braços do Eterno. E não creio que algum dia deixará de ser assim. Mesmo quando eu não sei qual é a minha fé. O Eterno me encontrou. E, nos dias em que a dor é forte demais, fecho os olhos e ouço um sussurro: “vem, filho amado, vem, em meus braços, descansar… e bem seguro te conduzirei ao meu altar… ali, falarei contigo… com meu amor, te envolverei… quero olhar em teus olhos, tuas feridas sararei…”

Pode parecer bobeira – ou até mesmo ineficaz. Mas não me importo. O que sinto ao mergulhar nessa experiência é algo que não consigo nem quero explicar. Não é uma anestesia. Não me esqueço dos problemas, não passo a acreditar em nenhuma magia que os irá solucionar. Não deixo de sofrer, de me ferir, de me machucar. Apenas sei que, mesmo quando tudo parece desmoronar, algo (ou alguém, se preferirem) que é Eterno está dentro de mim.

Se acreditar nisso e no Amor é fraqueza, reconheço-me fraco. E ainda mais: aceito-me apaixonado por essa fraqueza. Carente e dependente do Amor. Hoje, não preciso mais fingir ser forte. Hoje não preciso mais fingir ser quem eu não sou. Nem para os religiosos, nem para os céticos. Minha vida não é explicável, nem as minhas instáveis convicções.

Sobre a Ana Paula Valadão e as bobagens que ela hoje tanto diz: tanto faz. O meu amor e a minha gratidão permanecem. Assim como o respeito por quem ela foi-é para mim. Ignoro as tolices que ela pronuncia, como um pai que ama o seu filho, mesmo quando ele só faz coisas que ferem aquele que ele é.

Neste ano, em que o Diante do Trono comemora seus 20 anos, é inevitável pensar no tanto que a história do grupo liderado pela Ana Paula Valadão tem significado para mim. Em 20 dos meus 31 anos, ele esteve aqui… Os amigos, as risadas, as viagens, as memórias, as descobertas… Experiências que não cabem aqui. Nos próximos dias, quero apenas recordar…

Se eu ainda acredito em Deus? A resposta não cabe aqui!

Sobre a ressurreição – e momentos que se tornam eternos

Sobre momentos que se tornam eternos

Sobre a ressurreição – e momentos que se tornam eternos

Nesta Semana Santa, compreendi de uma forma bem nova a mensagem da ressurreição. Foram dias em que a Esperança ressurgiu em mim. Tomou conta do meu coração, renovou-o. Nesses dias que antecederam a Páscoa, o Eterno renasceu em mim. No encontro. Mais que encontro, na verdade: reencontro. Há coisas que, verdadeiramente, apenas o coração compreende.

Por meio de laços de Amor humano, um renascimento se deu em mim. Braços, abraços, risos, lágrimas, laços. Fui atraído. Sinceridade, verdade. Ouvi. Senti. Conheci e – ao mesmo tempo – reencontrei.

Esperança. Renascimento. Em mim. Em nós. Páscoa. Por meio de nós. Sacrifício. Ressurreição. Por nós.

Gratidão. Em mim!

Ao Eterno, a quem me atraiu…

Sobre quem eu não sou

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

Se há uma música que hoje – e já há algum tempo, até mesmo antes de eu conhecê-la – me representa é a canção ‘Esperança’, composição de André e Tiago Arrais (Você pode ouvi-la aqui). Não por acaso, esperança também é uma das palavras que mais admiro na língua portuguesa.

Tal como a personagem da canção acima citada, por vezes tenho sentido na pele o quão miserável sou. E, quanto a isso, já sou convicto e dispenso toda e qualquer palavra de ajuda e/ou incentivo que alguns teimam em dizer quando me expresso assim, demonstrando claramente que pouco me conhecem. Ou, talvez, que não aceitam aquele que sou. Sou assim, sem arrependimento, sem culpas.

Com esperança, no entanto… Mas qual esperança, alguns podem perguntar? Esperança que, no Eterno, posso ter, uma vez mais, o pão que outrora, quando sobrava, ainda era meu. E hoje não mais é… Minha fé, no entanto, é esta: “no desapontamento, a esperança nasce!” Assim, minha perspectiva, tal qual a do homem da canção dos irmãos Arrais, é a de viver o presente, independentemente do que passou. Porque, penso eu, de nada adianta lamentar-me pelo que passou. A parte do passado que não me orgulha deve servir unica e exclusivamente para me fazer caminhar de encontro Àquilo que almejo. Algo mais nobre, mais alto que eu…

Quando vejo que tudo mudou, muitas coisas para melhor, mas algumas, no entanto, para pior, acredito que a parte que me cabe é deixar para trás, no passado, o homem que fui, bem como todas as construções que ele edificou longe dAquele em quem deposito minha esperança e fé. “Se tudo mudou, eu abro as velas da embarcação. Na esperança que pela manhã, avistarei o porto onde te encontrarei…”

Busco desde que nasci. E nunca parei de buscar. Nem quero.

Não sei ainda exatamente o homem que quero ser. Mas, dia após dia, tenho mais convicção e certeza a respeito daquele que fui e não quero mais ser e também daquele que, apesar de nunca ter sido, sei bem que nem de longe almejo ser.

No momento, as noites nem sempre são bem dormidas. Como numa fuga, nadando na incerteza. Uma quietude que nem sempre revela paz e descanso. Confiante, porém, que após noites mal dormidas também me esperam dias em que a alegria se faz Luz.

Quando a tempestade me alcançar no Caminho – e sei que alcançará em muitos momentos – e o barco naufragar, quero apenas despertar numa terra firme. Junto ao Amor, em quem eu sou!

Sim ou não?!

Foto: Kleber Bassa

Foto: Kleber Bassa

Uma posição não é cristã apenas por ser baseada na bíblia; a opinião cristã é aquela que surge após a experiência de colocar-se no lugar do outro. Entender o seu problema. Sofrer a sua dor. Enxergar o mundo com os seus olhos. Tal como Jesus fez!

A posição cristã é, em sua essência, antagônica à posição religiosa. Nela, não há interferência de regras próprias e padrões morais pessoais. Há apenas uma atitude reverente diante da dor do outro. Se não é possível sofrê-la em comunhão, o caminho mais justo é o silêncio. Fora dele, sobrará incoerência.

Um seguidor de Cristo não é aquele que consulta um manual de regras (como a bíblia é vista por muitos) antes de decidir pelo “sim” ou pelo “não”. Muito pelo contrário, é aquele que não se amedronta ao ter que admitir a incerteza, a dúvida ou a escolha pelo “talvez”.

Os que amam entendem que Cristo não ofereceu regras. Entendem que o convite e a proposta dele era para que nos colocássemos sempre no lugar do outro. Primeiro, a ausência total de pecado. Depois, a primeira pedra. E essa primeira pedra, um imitador de Cristo sabe que nunca vai existir.

É importante entender que quando Jesus orienta que nossa palavra seja sim ou não, ele não fala de nenhuma posição ortodoxa. É necessário lembrar que a letra mata? Ou também que o Espírito traz vida? O convite de Cristo não é voltado ao nosso vocabulário, mas ao nosso coração.

Caso contrário, teria sido ele o primeiro a dizer “sim” ao apedrejamento da mulher adúltera (era essa a Lei). Mas ele não disse “sim” – e nem “não”. Apenas aproveitou a oportunidade para, uma vez mais, manifestar o seu incompreensível e grandioso Amor.

Posições ortodoxas – como “sim” e “não” – não refletem o Amor de Deus. O acolhimento, de braços abertos, daquele que erra, sim! Produz frutos de amor e de esperança…

Antes de consultar qualquer manual, leia o outro. Interprete sua vida. Devore as condições de sua existência. As pedras desaparecerão juntamente com os convictos vocábulos “sim” e “não”.

Diante de qualquer dúvida, basta lembrar que as vítimas da Inquisição reconheciam sua condição de hereges diante da bíblia. Em seguida, sentiam o calor do fogo que as consumia ainda vivas.

*Publicado originalmente no dia 30 de agosto de 2010 na extinta coluna Evangelho em Prosa

Hoje é dia de voltar

Foto: Alisson tato

Foto: Alisson tato

O que mais me chama a atenção na “parábola do filho pródigo/perdido” é a disposição do pai em recebê-lo de volta. Sem a necessidade de explicações ou humilhações. O pai apenas o esperava, desejava que ele voltasse, a fim de que pudesse cuidar dele e demonstrar o seu amor.

Engraçado é que às vezes a gente se esquece que a postura de Deus com a gente é a mesma. É triste que esse retrato pintado por Jesus acerca do Pai seja muitas vezes ignorado. Não é raro encontrar pessoas que não conseguem perceber o quão ilimitado e inexplicável é o Amor de Deus por cada um de nós. Quando nos distanciamos dele, espera ansioso pela nossa volta.

Todo dia é dia de voltar para o Pai. Todo dia é dia de retornar para os seus braços. Todo dia é dia de recomeçar. De tentar fazer tudo de novo, de um jeito melhor, com mais sabedoria. Todo dia é dia de voltar para o Pai. É sempre tempo de reconhecer o Amor dele por nós. E, simplesmente, aceitar Amor tão gracioso…

Não é preciso muito para se distanciar e, por isso mesmo, todo os dias são propícios para que voltemos para ele. Afastar-se do Pai, ao contrário do que muitos pensam, não implica deixar de ir a reuniões religiosas, ou mesmo deixar de obedecer regras, estatutos e leis. Distanciar-se do Amor de Deus não exige que deixemos de orar/rezar, nem mesmo ler o livro sagrado ou ouvir canções que exaltem os atributos dele.

Afastar-se do Pai é uma realidade que se dá no coração, ambiente que apenas ele conhece. É deixar de descansar e confiar no Amor dele. Esquecer-se que a nossa vida está em suas mãos. Ignorar que todo esforço humano é vão. Fugir da realidade, que é apenas uma: “se não tiver Amor, nada disso nos valerá”.

Para permanecer perto do Pai é preciso aceitar o seu Amor escandaloso por nós. É preciso desistir de toda tentativa de tornar-se justo pelo próprio esforço. É necessário que não se esqueça, nenhum dia sequer, que é pela graça dele que somos salvos. Não vem de nós. É dom de Deus… É por Amor.

Todo dia é dia de abandonar supostas certezas e reconhecer a única segurança que temos neste mundo: o Amor de Deus por nós!

Neste dia, ao acordar, fiz uma oração de entrega… Voltei, uma vez mais, para a segurança que só encontro nos braços dele.

Hoje é dia de voltar!

*Publicado originalmente no dia 16 de agosto de 2010 na extinta coluna Evangelho em Prosa