Sobre hrafaelrocha

a dor que me dilacera e destrói é a mesma dor que me revigora e reconstrói. sou assim. essa doce-amarga contradição!

Sobre a Gabriela Sorice

sorice

Dupla dinâmica da UFMG Educativa na Copa 2018

Eu já a havia visto algumas vezes. Mas passei a notá-la, com mais frequência, no momento em que comecei a trabalhar na Rádio UFMG Educativa, no segundo semestre do ano passado. Eu estava vindo de um momento bastante complicado e minha disposição para o encontro humano era bem rara.

A impressão – para mim, cristalina – era de que ela não gostava de mim: aquele típico “ela não vai com a minha cara”. Mas isso pouco importava naquele momento. Foi um tanto quanto recíproco: eu a achava metida, uma cara de chata.

Naquele momento, eu não percebi os sinais. Vai aí, então, um spoiler: eu sempre tenho uma péssima impressão inicial daqueles que virão a se tornar os meus amigos mais próximos e íntimos. Inequivocamente, penso: ele ou ela não vai com a minha cara…

Mas voltemos à cronologia da coisa: passaram-se alguns meses, até que, em um dia, eu precisei falar com ela sobre algo prático, envolvendo o trabalho. Confesso que me aproximei dela a contragosto. Mas fiz por motivos de trabalho: aquela coisa de ser profissional.

Pulemos alguns meses. Em março deste ano, passei a integrar, de forma oficial, a equipe de produção da UFMG Educativa. A partir da definição dessa mudança, soube que teria que sair de minha sala confortável e ter que trabalhar “naquela sala cheia de gente da produção”. Ter que me envolver com pessoas. Que lástima!

Minha primeira prioridade foi manter meu horário de trabalho majoritariamente na parte da manhã, para fugir da tarde, muito mais agitada. Logo nos primeiros dias, a Gabriela Sorice (que eu ainda não tinha nenhuma disposição de chamar de Gabi) ganhou alguns pontinhos comigo. Tinha sido aniversário dela uns dias antes (sim, ela é pisciana!) e ela resolveu levar doces que sobraram da festa. D O C E S. “Uma pessoa que gosta de doces e divide com as pessoas não pode ser tão má”, pensei.

Dali em diante, não sei bem como foi que aconteceu. Mas o fato irrefutável é: a pessoa aqui que trabalhava de manhã, de repente, só ficava na produção à tarde. E até muito tarde. Acho que era coincidência a Gabi (vish, virou Gabi) trabalhar só à tarde. Também acho que era coincidência o fato de a gente conversar e eu começar a me sentir à vontade para dividir com ela algumas das páginas mais horríveis da minha biografia. Coisas que eu não conseguia falar nem na terapia. Coisas que foram saindo de mim. Ajudando-me a ficar mais leve.

Não sei bem como ocorreu, mas, dali em diante, havia uma dupla formada. Foi ao lado dela que gravei a minha primeira entrevista para rádio (Tá, eu já entrevistava pessoas há mais de 9 anos, mas nunca havia feito entrevista para rádio. Apenas entrevistas para transformar em reportagem escrita… É diferente!). Tudo aquilo me assustava. O estúdio, o microfone e, principalmente, a minha voz.

Também foi ao lado dela que, pouco tempo depois, bastante assustado, eu tive que entrar em um estúdio para apresentar, pela primeira vez, um programa de rádio. Ao vivo. Por três dias seguidos. O que só não me assustou mais que a confiança da Lólis (outro presentaço que recebi do Universo em 2018) de que eu daria conta. Eu não achava que não daria. Tinha a certeza de que não. Mas consegui. Porque eu estava ao lado de uma pessoa que, àquela altura, eu já admirava também como profissional.

Sobre a profissional que a Gabi é, eu precisaria escrever vários relatórios. Além de toda a confiança nos bastidores, ela tem uma voz gostosa de ouvir, uma locução agradável e que te deixa com vontade de não parar de ouvir, uma segurança no ar, uma capacidade incrível de improvisar. Ela é boa demais, até mesmo quando erra. Uma das pessoas mais profissionais e parceiras com quem eu trabalhei.

Depois desses três dias, fomos ao estúdio algumas outras vezes juntos. Nossos universos em conexão (Aqui, eu propus um trocadilho infame com os programas que a gente apresentou: Universo Literário e Conexões). Fizemos pautas. Apresentamos e entrevistamos juntos. Escrevemos alguns “textos da internet”. Descobrimos nosso amor comum por Oreo (que é muito melhor que Negresco), bananinha frita e todo tipo de chocolate. Por Friends, futebol, vôlei, BBB e subcelebridades. Com menção honrosa, é claro, para o De Férias Com o Ex.

E, nesse processo de descoberta, eu também aprendi a me descobrir. Tanto que aprendi que devo parar este texto por aqui. Escolha consciente, pois eu poderia falar da Gabi por muito tempo mais. Mas vou parar antes de chegar na parte da despedida temporária… Para não ficar chato.

Todo esse texto introdutório serviu apenas para introduzir o assunto mais comentado no meu Twitter no dia 22 de dezembro de 2018. A Gabriela Sorice alcançou os trending topics (se não no Twitter, na minha alma e no meu coração). Vamos ler alguns comentários?

Sobre a partida

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Foto: Alisson Santos

​eu, que sempre me soube sozinho,
na vida e no mundo
de tanto ouvir sua voz
dizendo-me que sempre estaria lá
bem perto, comigo
venci a incredulidade
enfim, acreditei

tive sono, muito sono,
e dormi em paz

quando acordei,
você não estava mais lá
já havia partido

não por um momento
mas para sempre
aquele mesmo sempre
que tanto havia me prometido

Sobre aquilo que é abusivo

Conheci o abuso muito cedo. Em uma das suas piores formas. Ainda criança, aos cinco anos de idade, quando uma pessoa que deveria ter entre 18 e 20 anos começou a se aproveitar de mim. Parte de mim resolveu apagar os detalhes, mas acredito que tal situação se estendeu pelo menos até os meus oito anos. Hoje, quando olho para trás e me permito lembrar daquela época, o que mais dói é perceber que, mesmo sendo vítima de algo hediondo, aquela criança que eu era, abusada, sentia-se amada pelo abusador. Achava que aquilo era amor.

“Pois os demônios que eu crio, só eu posso calá-los.” (Foto: Alisson Santos)

Minha segunda experiência mais marcante de abuso começou alguns anos mais tarde. Por volta dos meus 11 anos de idade, em igrejas evangélicas, quando comecei a ser apresentado a um deus demoníaco. Vingativo, cruel. Um deus no qual dificilmente alguém conseguiria enxergar algum amor. Um deus que muitos familiares meus serviam àquela época e ainda hoje servem. Um deus do qual quero distância, que me tirou grande parte do prazer de uma fase em que a vida deveria ser leve. E não foi. Muitas vezes, por atitudes e intervenções de parentes, esse medo se acentuou. Houve uma época de minha vida, que se estendeu por alguns longuíssimos anos, em que eu tinha tanto medo de deus que passava grande parte dos meus dias pedindo perdão por qualquer coisa que eu tivesse feito ou, pior, pensado. Nunca cheguei a contar, mas com certeza ultrapassava facilmente os 70 perdões multiplicados por 7 a cada semana.

O medo se acentuou consideravelmente na puberdade, quando me descobri gay. Como se eu já não fosse pecador suficiente, eu ainda era “bicha”, “viado”, “sodomita”, “nojento”, “desgosto”, “vergonha”, “pecador”, “merecedor da morte”. Isso por ser alguém que não tinha ideia do que estava acontecendo comigo. Sei lá quantas vezes ouvi, calado, de pessoas que eu amava e admirava que eu iria para o inferno. Sem contar o ódio e os xingamentos que vinham junto. Como se já não bastasse a pressão social, havia ainda a pressão interna, vinda daqueles que te ensinam ser “família”. E o pior: proferiam o ódio comigo ali, ao lado, calado, sem coragem para me reconhecer como alvo daquelas palavras.

Esse abuso, proveniente da religião, talvez seja o que mais me marcou. Entre os 18 e os 20 anos, quando finalmente comecei a entender quem eu era, percebi que era chegada a hora de me afastar. De parentes e de “amigos” oriundos de minhas experiências com a religião. Não cabia a mim lutar ou tentar ser aceito por pessoas que odiavam aquilo que eu era. Por quê? Por alguma biologia que nos unia? Óbvio que eu não faria isso. Não fiz. E, claro, jamais farei. Amor eu quero daqueles que querem me amar, sem nenhum “mas…”. Se um heterossexual não precisa lutar por aceitação…

Nessa fase, ganhei três amigos, que se tornaram irmãos, e que ultrapassam facilmente laços biológicos tão frágeis: André, Rodrigo e Lucas. Tornaram-se, cada um a seu modo, família para mim. E, com eles, até hoje, aprendo aquilo que verdadeiramente é amor. Sem sentir-me abusado.

Ainda assim, agraciado por amores amigos que nunca, nem de longe, mereci, e que, desde então, têm cuidado de mim, aquilo que é abusivo voltou a me visitar. Ainda marcado por alguns valores adquiridos na experiência religiosa cristã, envolvi-me em alguns relacionamentos afetivos onde colocava o outro, quando não num pedestal, sempre à frente de mim. Suas vontades e necessidades, seus desejos, seu bem-estar. Deixei-me, muitas vezes, ser moldado, externamente, por aquilo que esperavam de mim e que diziam ser “ideal”, “mais bonito” ou “melhor para mim”.

Aceitei muita coisa. Passei a ver-me como inferior, pior. Muitas vezes mau. Tantas vezes cruel. Alguém para quem a única solução possível era morrer. Tentei amar. Não sei se soube. Não sei nem se sei amar. Mas sei que nunca consegui me sentir amado. Sempre senti que as coisas simples eram um desafio, um sacrifício, para mim. Talvez pelo efeito dessas experiências abusivas que me visitaram desde quando eu nem era capaz de as entender.

Mas hoje eu vejo. E enxergo. E sei…

E me sei amado pelos meus pais, Eustáquio e Du, pelas minhas irmãs, Raquel e Flávia, por meus três amigos-irmãos, André, Rodrigo e Lucas, e por mais uns tantos amigos e afetos com os quais a Vida tem me agraciado… E tais amores, no momento, terão que me bastar!

Hoje, mesmo não sendo mais cristão, ainda vejo no Cristo descrito nos evangelhos do livro sagrado dos cristãos um exemplo a ser copiado e seguido. No entanto, confesso, eu não pretendo sequer tentar amar como ele orientou. Não cederei a outra face a quem me atingir. Se levar um tapa, retribuirei com um murro. Se me fizerem o mal, certamente não devolverei nenhum bem.

Aquilo que é abusivo nos atinge e toma conta das nossas vidas sem que, muitas vezes, saibamos. Ocorre em nossas famílias, em relacionamentos, em nossos trabalhos, no meio acadêmico… E quase sempre só enxergamos muito depois, quando aquilo já se transformou em passado. Não aceitarei mais nenhum abuso calado. O mundo é mau. As pessoas, muitas vezes, são perigosas e cruéis. Por isso, vou sempre reagir. É essa minha forma de seguir vivo… e de ser amado por aqueles que, melhores que eu, são capazes de me aceitar, me abraçar e me ajudar a viver!

Muito ouvi, na religião, que a palavra tem poder. Tem poder para libertar. É por isso que este texto está agora aqui.

Que a liberdade me guie e tome conte dos meus passos.

Seja bem-vindo, 2017!