Sobre o colo, uma caixa qualquer

Foto: Alisson Tato

Foto: Alisson Tato

Talvez, quem sabe… Um pouco da paz e da tranquilidade que ele tanto ansiava estivesse ali dentro. Ou não. Sentado em seu quarto, na penumbra, Davi meditava… Sobre a felicidade. Sobre a dor. Sobre aquela caixa em seu colo…

Anoiteceu… E Davi continuava ali, sentado, com a caixa sobre o colo e, agora, de forma bem atenta, a observar as estrelas. Não eram poucas as percepções que elas lhe traziam. Enquanto dava asas à imaginação, mesmo que inconscientemente atrasava a reflexão sobre aquela caixa, que permanecia ali, sobre seu colo, intocada, inviolada…

Davi sabia, de alguma forma, que o conteúdo daquela caixa poderia transformar radicalmente a sua vida. Para melhor ou para pior?, era essa sua maior dúvida. Em algum lugar de sua alma, repousava a convicção de que o conteúdo da caixa traria também muitas lembranças de coisas já vividas. Algumas esquecidas até propositalmente, como numa tentativa de alcançar a paz de espírito por tantos almejada, sendo ele um desses tantos nesta vida. Esse era um de seus medos. Os antigos donos da caixa haviam lhe prometido paz, que ele acreditava poder ser abalada caso algumas lembranças pudessem sair de dentro dela. Eis um dos paradoxos que ele enfrentava…

Para escapar das armadilhas de sua própria mente e coração, Davi voltou a buscar refúgio nas estrelas. Àquela que mais brilhava pediu a graça de ser amado, de ser o amado, como seu nome um dia previra… Isso, ele estava quase certo, nada que estivesse dentro daquela caixa poderia lhe dar. Tinha medo, na verdade, de que ela, a caixa, lhe trouxesse apenas o contrário… Davi temia o desprezo.

E se os antigos donos daquela caixa tivessem mentido para ele? E se o tivessem enganado? Seriam as promessas, falsas? Tentativas apenas de convencê-lo a experimentar um conteúdo desconhecido… Talvez seus donos anteriores, tal qual ele, tivessem recebido a caixa com as mesmas esperanças e, insatisfeitos com o resultado, houvessem decidido compartilhar o conteúdo com outros fragilizados pela vida. Pura crueldade, ele sabia. Mas o homem que ele conhecia era capaz disso. E talvez fosse a hora de  romper o ciclo. Talvez ele devesse destruir a caixa… Incertezas, dúvidas…

Sob a bênção do brilho das estrelas, recostado na parede do quarto, com a caixa sobre o colo, Davi adormeceu. E, naquela noite, sonhou que tinha aberto a caixa. E após abri-la, ele – que sempre possuíra uma facilidade incomum no lidar com as palavras – nunca mais escreveu, nunca mais sonhou, nunca mais sofreu.

Os primeiros raios da manhã iluminaram seu rosto. Nele, um sorriso mostrava a felicidade de alguém que, enfim, havia encontrado aquilo que tanto ansiava. Paz, tranquilidade.

No chão, próximo a seus pés, estava a caixa… Enfim, aberta. Estava vazia…

4 respostas em “Sobre o colo, uma caixa qualquer

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