Sobre pinguins, diferenças e a amizade

Imagem: Kleber Bassa

Imagem: Kleber Bassa

Faz alguns anos que coleciono pinguins. O gosto pelos animais veio em 2006, ano em que foi lançado o filme Happy Feet, vencedor do Oscar, no ano seguinte, como melhor filme de animação. Fui assisti-lo ao lado do André, que, um tempo depois, me daria o primeiro pinguim – um Mano de pelúcia – do que se tornaria uma paixão.

Mano (ou Mumble, no original) é o protagonista da história de Happy Feet. Nela, sofre com a exclusão por ser diferente. Em meio a pinguins cuja vida é cantar, e que só encontram o amor por meio do canto, Mano é absurdamente desafinado. Mesmo após muitas tentativas, não consegue se adaptar e, assim, é excluído pelos demais.

Apesar de não saber cantar, Mano nasce com um dom não possuído pelos seus iguais: a dança, daí o nome happy feet (literalmente, pés felizes). O pinguim desafinado sabe mexer os pés e sapatear como ninguém mais. Porém, “isso não é coisa de pinguim”, lembra seu pai. Cegos pela ideia de que todos devem ser iguais, os pinguins que o cercam não percebem o ponto de união entre canto e dança: a música. Não veem que o talento de Mano poderia complementar o canto dos demais. O que tinha o potencial de unir acaba separando. Devido à incapacidade dos outros de enxergar um pouco além.

A história do filme não me atraiu à toa. Ela é um espelho da sociedade em que vivemos, onde, todos os dias, somos treinados a excluir o diferente. Daí as frequentes cenas de bullying e preconceito que presenciamos ainda hoje, em um país que se atribui o adjetivo tolerante quando se fala das diferenças. A verdade é que somos intolerantes mesmo e precisamos de um espelho, mesmo que uma animação sobre pinguins, para nos relevar aqueles que somos. O que é triste.

Mas, voltando à minha vida, faz um bom tempo que tenho lutado, comigo mesmo, para ser mais inclusivo, acolhedor em relação àquilo que me soa como ruim, apenas por ser diferente daquilo que eu considero ideal. E a amizade que construo com o André há cerca de oito anos é um dos maiores (e melhores) ensinamentos que encontrei na vida. É claro que temos muitas semelhanças, mas temos, principalmente, diferenças. Talvez, por isso mesmo, seja uma das amizades mais impactantes e importantes que possuo (e pela qual sou possuído) na vida. E um possuir sem qualquer neurose possessiva. Amizade sem pesos, sem datas, sem obrigações. Como, para mim, uma amizade deve ser – é!

Estar com o André é extremamente prazeroso. Nossas conversas incluem um sem-número de assuntos, os mais diversos que se pode imaginar. Nossos programas são inesquecíveis. Nossos gostos musicais, os filmes e séries que compartilhamos, os vinhos e cervejas que degustamos. Inúmeros aprendizados. Inúmeras alegrias. Muito amor. Muita alegria. Felicidade. Amizade. Sentimentos verdadeiros. Genuínos. Mesmo.

E isso só existe porque, um dia, ambos escolhemos olhar para além das diferenças e enxergar aquilo que nos poderia unir. Fruto do Eterno. Graça não-merecida, e intencionalmente redundante, em minha vida.

Coincidentemente, quando penso em Happy Feet, lembro que não sei dançar, coisa em que o André é anos-luz melhor que eu. Por outro lado, me arrisco cantando. Unidos por um mesmo som, uma mesma música

2 respostas em “Sobre pinguins, diferenças e a amizade

  1. Como não sorrir lendo essas palavras? Belíssimo post, que me lembra como as coisas mais simples adquirem os significados mais relevantes em nossas vidas quando interpretado e vivenciado da maneira correta!!!

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