Amor, palavras, cegueira

Imagem: Kleber Bassa

Ilustração: Kleber Bassa

Para Hugo Rocha, que me ensinou tantas coisas, as quais não sou capaz de agradecer.

Ao Contradição, referência a todos nós, escritores; pois quem lê sabe reconhecer a importância de suas letras.

E, por fim, a todos nós: palavras delicadas e assustadoras, mas que estão aí e nos convidam. 

 

Somos – nós, os humanizados – todos cegos, vivendo em um mundo repleto de luzes. Luzes, estas, que não enxergamos; não sentimos e, mesmo que sentíssemos, não suportaríamos senti-las. Não importa, então.

Cegos de nascenças: chagados, de luzes apagadas, de mentes esquivadas do foco principal dessa vida, infundados, espantados. De corações apagados. De sentimentos secos (se é que há), de olhos molhados com lágrimas secas. E é tudo seco; permita-me, portanto, a redundância e o cacofonismo para este texto: sim, tudo está seco.

E em nós secou-se a vida.

Secamo-nos, sim. Desconhecemos o processo. Desconhecemos o princípio, tal qual tememos com todas as forças o anúncio do fim. Desconhecemos a vivência das coisas que um dia nos foram contadas, coisas boas, sobre memórias de tempos mais remotos e anteriores. E foram contadas e recontadas a todos nós, mas cegos estávamos e não sentimos. E, confusos com a rapidez do passar deste tempo e destas tantas e tamanhas memórias, refutamo-nos a nós mesmos. Ignoramos o potencial de vida (o sopro inicial de vida, dado a todos nós) e nos esquecemos.

Nossas almas foram e estão cegas. É tempo de tristeza, pois não vemos o trigo. Nem o pão.

Nossos corações estão cegos. E já não há tristeza mensurável a todas essas palavras.
Recuso, cego que sou, escritor que sou, este sentimento que me atormenta, em todo o tempo de pensamento, dizendo que é necessário que eu constate e escreva sobre todas essas coisas. É inválido enxergar, pois não de fato enxergo. É inútil sentir, pois sei que tudo o que chega ao meu coração não é tão pertinente – estou cego, afinal. É inútil. Se meu coração esteve feliz por um momento, me entristeço agora por perceber que não era pleno este momento e não era real essa felicidade.

Não se é feliz com a alma cega.

E diligentemente peço imensas desculpas a todos que me leem. Peço perdão pela minha repetição, constante, constante, constante. Peço desculpas pela minha insistência em falar do que não sei – tampouco saberei com estes olhos fechados. Isto é: peço desculpa a nós. Lanço estas palavras ao céu, com pouca esperança, já me arrependendo por tê-las lançado. Estou fadado ao paradoxo de escrever. Sinto que todas essas palavras são inúteis e perversas – e a perversão é cultivada pela cegueira. E novamente peço desculpas – a quem, sei lá, ao vento, talvez, a Deus, sei lá…

Vocês sabem…

Sobretudo (e isto é claro), arde a vontade de enxergar e entender esses tempos tão densos. Cansado, volto-me a palavras distantes, as quais eu entenderia se não estivesse nesta condição, palavras que me causam medo, espanto e repreensão:

“O que você quer que eu lhe faça?” “Senhor, eu quero ver”, respondeu ele.

Wendell dos Reis

Nono e, não por acaso, último convidado da série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™, completados em 2012. Escolhi também encerrar as atividades do contradição neste ano com o Wendell, cujas letras (quase) sempre poderiam ter sido escritas por mim. Isso sem qualquer sentimento de arrogância, mas apenas porque o Wendell consegue traduzir, como poucos, aquilo que penso e sinto.

Uma resposta em “Amor, palavras, cegueira

  1. “fadado ao paradoxo de escrever”. realmente é fácil perceber as semelhanças… texto realmente dolorido. uma bela escolha para encerrar o ano e a série de textos “comemorativos” de um espaço como o contradição!

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