As boas-novas do Reino

as-boas-novas

Ilustração: Kleber Bassa

 “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o Evangelho” (Lc 7:22)

Os cegos vêem. Nessa cura, passam a enxergar a realidade ao seu redor com outros olhos. Descobrem que, se os olhos deles forem bons, todo o corpo ficará bom. Doutro modo, aprendem que se os olhos forem maus, sejam fisicamente cegos ou não, todo o resto estará na obscuridade. Aprendem que para os puros, tudo é puro; para os impuros, nada é puro. São revolucionados pela Doçura do Amor, e assim procuram caminhar.

Sim, eles vêem.

Eles também se vêem. Enxergam-se em sua condição inescapavelmente maltrapilha. Descobrem que o mais nobre dos seus atos não passa de trapo de imundícia, diante da sublimidade do Evangelho. Mero esterco, nas palavras de Paulo.

Em se vendo, eles se desvencilham de qualquer postura judicativa em relação a outrem. São menos escandalizáveis. Lidam com pessoas, com gente.

Sabem quem são. E também vão fazendo tal descoberta processualmente, à medida que as escamas dos seus olhos vão caindo pela Graça do Eterno. Não querem mais fugir de si. Chamam suas sombras interiores pra conversar. “Puxa a cadeira, minh’alma”, como poetizou o querido Stênio Marcius.

Eles são vistos. Não buscando os mecanismos de visibilidade social, os famigerados “holofotes”, tão caros ao farisaísmo e ao status quo religioso.

Sabem que são vistos pelo Pai, e isso não os amedronta ou afugenta mais. Descobre que esse olhar “furioso” – leia-se intenso -, parafraseando Brennan Manning, é (de) Amor, Bondade e Misericórdia. A consciência de que a Misericórdia dEle dura para sempre penetra em seus corações como verdade insofismável, e isso os pacifica. Mesmo.

Os surdos ouvem. “As ovelhas reconhecem a sua voz, e seguem”. Simples assim.

Tornam-se mais dóceis, a começar pela escuta. Aprendem a ouvir. Têm prazer em fazê-lo. Sim, uma das descobertas mais preciosas desses outrora surdos é que o discípulo de Jesus é, inescapavelmente, “ensinável” e, para tanto, o Evangelho o convida a ser “escutável”. Escutar, ouvir não é um peso, uma tarefa: ele degusta, fazendo prazerosamente o que lhe ensinou Paulo: reter o que for bom.

Por “bom”, tais pessoas não traduzem por “conveniente”.

Sabem que o Evangelho freqüentemente lhes confronta, para que cresçam à estatura espiritual que lhes é proposta.

Experimentam as “doces consolações do Espírito”, mas não estão insensíveis nem refratários às “doces perturbações e provocações” do mesmo Espírito.

Em ouvindo, também deixam de ouvir. É fato. Aprendem que, mesmo surdos, ouviam muitas coisas que lhe fizeram Mal. Mesmo. Num dado momento da vida, muitos deles se sentem como gadarenos simbólicos, ouvindo multidões exteriores e, principalmente, interiores.

Vozes destoantes.

Esquizofrênicas.

Esquizofrenizadoras.

Mas ouviram A Voz, que cessa tal barulho, essa multidão enlouquecedora.

E valorizam o silêncio….

“Meus Deus, supostamente o que um surdo mais queria experimentar era ouvir, seja o barulho que for!”

Descobrem que nem sempre. Não dá para ouvir qualquer coisa.

É-lhes dado, por Graça e pelo Espírito, o discernimento de saber isso, e a possibilidade de não ficarem reféns de tais escutas, de tais memórias e vivências.

“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo”….

Nesse caminho interior, esses surdos, absurdados pela Voz do amor, também se ouvem.

Isso passa a fazer parte do cotidiano deles: ouvirem a si próprios. Sentirem-se. Isso os desneurotiza.

Muda inclusive seu modo e jeito de orar, outrora frenético, paranóico e acelerado.

São ouvidos. Algumas vezes, todo ouvidos. Valorizam os momentos de encontro com amigos, mas não fazem deles momentos logorréicos e verborrágicos, onde todos falam e ninguém ouve.

São, como bem diz o Léo Bueno, cuidadosos inclusive com a tendência de “banalização do tempo alheio”. Se o outro está aqui, e separou um tempo precioso para me ouvir, então não lidaremos com isso de forma leviana.

E descobrem a beleza de serem ouvidos por gente que outrora passava despercebida por eles.

Vão encontrando e descobrindo bons samaritanos na caminhada da vida, pois é lá que eles estão.

Os mudos falam. Falam porque sabem que não serão julgados entre os demais maltrapilhos, nem pelo Pai Eterno, que os ama com Amor igualmente Eterno.

Falam porque sabem que existem catarses absolutamente necessárias.

Ou falam, ou morrem. Por dentro, inclusive.

Ah, como é bom poder falar das minhas “pérolas existenciais” a maltrapilhos como eu, e não a caninos e suínos simbólicos! (Mt 7:6)

Aprendem também o silêncio voluntário. Sim, esse silêncio assume um “lugar” especial em seus corações. Nem sempre esse silêncio tem plena correspondência com o silêncio verbal, mas há momentos em que eles se coincidem. E os outrora mudos se alegram em tais momentos, e não abrem mão deles.

Os paralíticos andam. Movem-se. Sim, sabem que há “movimentos existenciais” que só podem ser tomados por eles mesmos, e não transferem pra ninguém a responsabilidade por suas escolhas, sejam equivocadas ou não. Não culpam ao Pai, ao diabo, à família, ao contexto social, à sua história de vida, ao mundo globalizado, ao cenário midiático ou quaisquer outras coisas do tipo.

Descobrem que a consciência da Graça nos conduz a viver com responsabilidade nesta vida.

Sua oração mais íntima e constante é: “que essa Maravilhosa Graça não seja vã em nossas vidas”.

São movidos. Se rendem ao convite, experimentando a mais genuína das conversões: “Sim Senhor”. Ponto. Pronto.

Co-movidos. Movidos pelo Espírito. Movimentados pelo Amor.

Fazem também os movimentos da alma. Interiores. Sutis, mas reais. As vezes profundamente dolorosos.

Peremptórios. Concretos.

Os leprosos são purificados. Sim, sentirem-se tocados sem asco, repulsa, nojo ou até mesmo medo lhes é algo balsâmico. Terapêutico até.

Alguns são literalmente curados de sua lepra. Coisas do Eterno…

Alguns continuam leprosos, mas agora conseguem caminhar com alegria, leveza e gratidão, sentindo-se incluídos entre outros leprosos.

Como sabiamente escreveu certa vez meu amigo Carlos Bregantim, o “Brega”, eles agora vivem disputando quem chega primeiro aos pés da Cruz….

Não têm outro Caminho a fazer….

Os mortos ressuscitam. São vivificados pelo Espírito.

É-lhes restaurado o encantamento do Evangelho.

Aprende, como sabiamente escreveu o Caio, que “morrer não é mau: viver mal é que é mau”.

Nesse processo, esses mortos agora fazem dos pequenos momentos da Vida, oportunidades de celebração e, principalmente, o Senhor dela, que nos concede esse Precioso Dom.

Aprendem, agora vivos, a ouvir as canções que tocam o coração;

A lerem bons livros;

Poesia.

Apreciam as diversas, ricas e belas manifestações artísticas e culturais, seja de que tipo e de onde forem.

Sentem-nas. Tocam e são tocados por elas.

E, em tudo isso, seus corações se enchem de alegria e gratidão ao Eterno.

“Reconhece-o em seus caminhos”…

Aos pobres anuncia-se o Evangelho.

Gosto muito da tradução da Bíblia em Linguagem Contemporânea a respeito deste trecho:

“Os marginalizados da terra ficam sabendo que Deus está do lado deles”.

Desnecessário tecer mais palavras.

Apesar de tantas notícias alarmantes, angustiantes e catastróficas, há também um mover do Eterno na Terra. Um convite.

Alguns têm discernido e atendido, cada um ao seu modo, a tal chamado….

Esperança

Henrique Willer

Mano-amigo muitíssimo querido, que me pastoreia junto ao Caminho, o oitavo e penúltimo convidado nesta série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™.

2 respostas em “As boas-novas do Reino

  1. Pingback: O novo contradição™ | contradição™

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