Deve haver alguma coisa que ainda te emocione

Ilustração: Kleber Bassa

Se quando idosos vivemos das memórias que tivemos ao longo da vida, serei um velhinho ranzinza de natureza e feliz de coração.

A selva do dia-a-dia está aí testando nossos nervos e nos colocando à prova minuto a minuto. O relógio que nos escraviza a cada volta do ponteiro com o próximo compromisso a ser cumprido ou a próxima conta a ser paga. Somos preparados para a disputa pela vaga no emprego, na faculdade, a vaga no estacionamento e o melhor lugar no cinema. É uma disputa individual. Dessa forma seguimos e aprendemos da pior maneira a disputar sem olhar para o lado. Sem olhar para o próximo. O cérebro não consegue raciocinar além do bem e do mal.

Felizmente ainda existem situações em que o individualismo é secundário e o coletivo torna o ambiente bem melhor. Sou apaixonado por manifestações empolgadas de plateias em delírio. Alguém bem exagerado chamaria de alucinação coletiva. Eu não chegaria a tanto. Chamaria apenas de emoção.

Em tempos de filtros em fotos, sorrisos em perfis e engajamento politicamente correto aos olhos dos outros fica difícil encontrar algo que de fato te emocione. Sou apaixonado por fotografia. Outro dia vi uma foto que julguei, num primeiro momento, ser perfeita. Mas o ‘encanto’ acabou quando, lendo as informações sobre a foto, vi que o software utilizado foi o Photoshop. Quanta frustração.

Foto: Everaldo Vilela

Tem sido difícil encontrar algo de fato original. De tempos em tempos padrões chegam para ditar regras e até a tentativa de fugir deles torna-se clichê. Ainda na fotografia gosto do registro bruto. Sem retoques ou consertos. Talvez o jornalismo tenha impregnado no meu conceito a ideia de que não pode haver alteração. Há poucos dias fiz uma foto voltando de uma trilha. Na subida notei que a vegetação do serrado que começara a secar ganhava um tom amarelado que contrastava com o azul do céu e as montanhas ao fundo. Não hesitei: “saquei” a câmera e disparei três fotos movendo um pouco o corte…

Estádio de futebol é outro lugar que me emociona. Não precisa ser o jogo do meu time. Gosto mais de futebol. O gol é um momento incrível. Uma catarse instantânea que desencadeia variadas emoções e capaz de fazer homem chorar. A velha bobagem de que homem não chora, no futebol, cai por terra com uma bola no ângulo em momento difícil ou um gol de artilheiro contra o arquirrival. Já me peguei várias vezes observando os torcedores enquanto a bola rola. Felizmente já tive oportunidade de assistir jogos em outros estados e, ele, o torcedor, é igual seja no Recife, no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Belo Horizonte ficou dois anos sem estádio de futebol. Na volta do Galo para o Independência, ter novamente a sensação do meu time jogando em casa foi incrível. O primeiro gol, no jogo contra o Goiás, trouxe de volta a explosão de alegria que remeteria imediatamente às lembranças da catarse das arquibancadas vivida em outros momentos…

Sou apaixonado por música e costumo dizer que música de estúdio tem vida, mas ganha alma quando é tocada ao vivo. Sou capaz de listar dezenas de shows que pude presenciar e que me emocionaram bastante. Ano passado logo que pisei na Cidade do Rock na quarta edição do Rock in Rio aqui no Brasil fui tomado por uma alegria indescritível. Como poderia tanta gente junta curtindo música? Aquilo era verdadeiro. O primeiro show que assisti foi uma mistura de Cidade Negra, Emicida e Martinho da Vila. Quando o vocalista Tony Garrido disse: “Emicida, você não sabe o quanto eu caminhei para chegar até aqui”, minha visão ficou comprometida: eram as lágrimas marejando os olhos e, sem menor cerimônia, correndo uma a uma no rosto. Quando Alceu Valença e a Orquestra de Ouro Preto tocaram, em abril deste ano, as canções do pernambucano, o pensamento percorreu a memória e trouxe consigo as lembranças das visitas à terra do frevo que eu voltaria dias depois para ver Los Hermanos e Paul McCartney – outras duas grandes emoções.

A imagem. O delírio. O som. O coro em uníssono cantando o hino, a canção, o grito e o aplauso. Todos ingredientes de uma memória tomada por emoções fruto de uma série de momentos marcantes. Várias pessoas juntas em momentos que suas individualidades são colocadas à margem. Emoções que nem sempre precisam de momentos apoteóticos. Sempre criamos expectativa de que festas serão acontecimentos extraordinários… a gente cria muita expectativa: queremos entradas triunfais, finais arrebatadores, gol aos 46 minutos do segundo tempo, beijo de cinema; A entrada pode ser surpresa contanto que seja de alguém bem bacana, o final pode ser o inesperado: que mexe com a gente; o gol pode ser no primeiro minuto daquele jogador esforçado e o beijo pode ser o roubado…

Permita emocionar-se. Não deixe de fazer algo que tem vontade por qualquer que seja o motivo. Queira. Viva. Sinta. Não se deixe gessar numa massa de manobra. Não deixe o tempo lhe tornar frio. Não permita que o automatismo faça com que o sangue que corre em suas veias seja algo meramente mecânico. Faça o sangue “ferver”. Faça pulsar! Porque ainda que os padrões insistam em determinar o movimento das coisas e o noticiário nos desanime e nos faça em muitos momentos querer desistir desse tal de ser humano, deve haver [e sempre há] alguma coisa que ainda te emocione. É atrás dela que devemos ir.

Abaixo pequenas grandes emoções que me marcaram e ficarão para sempre na memória , na alma e no coração:

A foto a qual me refiro no post: Trilha das Cataratas dos Couros – Chapada dos Veadeiros – Alto Paraíso de Goiás- GO.

Alceu Valença e a orquestra de Ouro Preto.

O Gol, catarse.

Coldplay.

P.S.: A frase título do post eu tirei da música ‘Banco’ de autoria de Humberto Gessinger e gravada no álbum Minuano dos Engenheiros do Hawaii.

Everaldo Vilela

Everaldo, o sétimo convidado nesta série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™. Ele também escreve em seu blog pessoal E|ver|aldo.

7 respostas em “Deve haver alguma coisa que ainda te emocione

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