Queijo, doce e algo mais

Ilustração: Kleber Bassa

Foi quando Tomás parou. A visita, até agora, não tinha lhe oferecido nada de interessante. Deu um passo a frente. Não se incomodou com a linha vermelha posta para que ninguém chegasse perto das obras e pudesse tocá-las. Algo em sua garganta não o deixava engolir. Dubiamente, esse “algo” o tinha deixado feliz. Olhou para os lados com o intuito de ver se alguém se aproximava antes que aquela lágrima escorresse pelo seu rosto.

“Ninguém”, disse roucamente. Enquanto vigiava para que Miguel, seu amigo, não o visse chorando, notou que era quase que imperceptível a entrada da sala onde ele estava. Foi andando em direção à porta para que pudesse trancá-la. Decepcionou-se quando percebeu que aquela porta não tinha fechadura. Deu um passo para fora da sala, não viu ninguém. Tinha se perdido do grupo. Virou-se para a porta e viu uma placa. Nela, em letras garrafais, estava escrito “Queijo, doce e algo mais”.

Abriu um sorriso por dentro. Adorava queijo, adorava doces. E passou adorar aquele “algo mais” que nem ele mesmo conhecia.

Fechou a porta atrás de si e foi ouvir um segredo que mudaria sua vida.

Na ponta dos pés, como se estivesse assaltando uma residência, Tomás foi se dando conta de que a sala em que estava era como as demais. Como ele queria uma novidade…não como aquela última, dita por sua mãe, que anunciava o fim do casamento dos pais…queria estar num lugar como o do quadro à sua frente. Ao fundo, duas construções oponentes. Um pouco mais perto do observador, brotavam flores e…na frente…na frente estavam dois rapazes, sorrindo, abraçados. Sentiu algo de diferente vindo daqueles rapazes, era como se ver aquela tela o tivesse transportado para um lugar sereno, onde podia ficar sem lembrar-se do fim do casamento dos pais. Observou pela última vez o sorriso do rapaz que usava óculos escuros e leu, com dificuldade, o nome da obra:

“Renan, Victor, Mineirão e Mineirinho.

Pampulha, Belo Horizonte – Minas Gerais

(04 de Janeiro de 2010)”.

Abriu um sorriso. Sentiu um brilho diferente nos olhos. Seu coração batia um pouco mais forte, mas, ainda assim, estava sereno…Concluiu que, pela diferença entre os tamanhos das construções, a maior era o Mineirão.

De soslaio, prosseguiu explorando aquela sala. Achou engraçado que era só se aproximar das obras pra uma luz se acender em torno da mesma. Ficou feliz, uma vez que facilitaria sua visão.

Via, agora, uma outra tela com os mesmos rapazes da primeira abraçados a uma moça loira e que, por um motivo que desconhecia, também usava óculos escuros. Abriu o sorriso outra vez, o brilho voltou aos seus olhos. As três pessoas na tela estavam (ou ao menos pareciam) felizes. Imaginou que fossem irmãos. Desfez-se do pensamento na mesma hora, pois seu irmão nunca pousara ao seu lado para uma foto. Viu-se desejando estar ali naquela tela, ou melhor, na hora em que pintaram a tela. Queria saber o que os rapazes fizeram depois da pintura, se eles continuaram se falando, se eles ainda se reuniam, se eles ainda gostavam de usar vermelho…se eles ainda eram felizes. Desviou o olhar das pessoas que ocupavam o centro e observou que eles estavam debaixo de uma grande cruz e quase tocou a tela quando se deu conta de que atrás deles e da cruz, havia uma linda montanha.

Entrou em êxtase, quis morar ali. Não podia tocar na tela, mas seus dedos foram seguindo a montanha, de uma extremidade à outra. Podia ver a linda casa que seu pai construiria para eles bem ali, no alto da montanha. Engasgou-se com o pensamento de que a mãe já não podia desfrutar da família. Levemente levou os dedos à boca e viu o nome da obra:

“Renan, Nayara, Victor, Cruz e Montanha.

Praça do Papa, Belo Horizonte – Minas Gerais

(04 de Janeiro de 2010)”.

“Eles estavam passeando”. Deliciou-se com a ideia.

De repente, uma música começa a tocar.

De onde estava vindo? Será que tinha alguém, além dele mesmo, na sala? Olhou atentamente para todos os lados, não viu ninguém.

Parou de procurar alguém. Parou de andar na ponta dos pés. Ficou ouvindo o que dizia música:

“…coisas que só o coração pode entender…”, “…coisas lindas que eu tenho pra te dar”, “…é impossível ser feliz sozinho…”. A música ficava cada vez mais nítida conforme ele ficava mais perto de duas obras, que estavam dividindo o mesmo espaço. Dessa vez, havia um rapaz com os dois rapazes. Ele era nitidamente maior. Passou os olhos em uma das telas que mostrava os três deitados na grama. O rapaz maior dormia e os outros dois, Renan e Victor, posavam para a pintura. Será que tinha acontecido ali um piquenique? Não importava isso. Era tão bom vê-los do jeito que estavam: perto um do outro, quase que colados. Chegou a imaginar os segredos que eles trocavam, as conversas que eles tinham. Ficou imaginando que, no dia em que a tela fora pintada, eles marcaram de se encontrar em algum lugar de Belo Horizonte e que foram andando. Andaram, compraram alguma coisa para comer, riram no meio do caminho, tiraram graça com a cara um do outro…e se abraçaram quando as palavras não saíram mais. Seus olhos brilhavam, queria estar ali com os três! Queria dizer que sua vida não estava a melhor do mundo, queria alguém que não fosse espalhar pelo colégio que estava triste, queria um amigo.

“Eles eram amigos”.

Olhou para o nome da tela

“Renan, Victor e Hugo na Grama.

Parque Municipal, Belo Horizonte – Minas Gerais

(10 de Janeiro de 2010)”.

A outra pintura do conjunto era dentro de um ônibus e os três rapazes estavam juntos. Odiava ônibus, mas queria estar ali. Queria ter tido o prazer de conhecer aqueles rapazes, aqueles amigos…queria ter vivido na mesma época para que pudesse fazer parte daquele ciclo que lhe inspirava tantas coisas…

Parou para ver uma outra tela que achou interessante. Renan (esse era o nome do rapaz que usava óculos) usava uma blusa azul e, ao seu lado, estava um outro rapaz que não aparecera nas telas anteriores. Era um rapaz que usava aparelho nos dentes e usava uma blusa verde, tinha um cabelo liso. “Lucas Paiva” era o seu nome e isso Tomás descobriu depois de ver que a pintura tinha sido feita em Manaus, no Amazonas, no dia 09 de Junho de 2012.

Aos poucos foi olhando outras telas e concluiu que a sala inteira era preenchida por telas em que Renan, Victor, Hugo, Nayara, Lucas e outras pessoas eram o tema principal. E, aos poucos, foi percebendo que os rapazes envelheciam. Havia marcas nos rostos das pessoas que eram pintadas, mas nem por isso deixavam de sorrir ao posarem para a pintura. Observou que a cor dos cabelos desbotava e que em alguns deles não havia tantos cabelos assim. Foi notando, também, que algumas pessoas desapareceram das telas, deixando um rombo em sua mente. “O que houve? Será que brigaram? Será que deixaram de se falar? Será que deixaram de ser amigos?”.

A sala continuava, mas ele não teve coragem para prosseguir. Sentiu que não veria algumas pessoas nas telas e, independente do motivo, não queria saber o que tinha acontecido àquelas pessoas. Além do mais, não queria apagar da sua memória o que vira até agora. Queria ver todos juntos, mais uma vez, pois era assim que ele queria lembrar-se daquele lugar.

Foi voltando e começou a chorar. Sentou-se no meio da sala. Viu tantas telas com as mesmas pessoas fazendo coisas diferentes, coisas legais, coisas que ele queria fazer. Queria um amigo. Lembrou-se d’Ele. Fechou os olhos, estava em paz. Não sabia como iniciar, não sabia o que dizer. Apenas fechou os olhos, uma lágrima lhe escorreu pelo rosto. Tinha acabado.

Levantou-se, olhou em volta. Voltaria ali mais vezes. Sorriu, andou confiante. Abriu a porta e avistou Miguel mais adiante. Fechou a porta sem que ninguém ouvisse e ficou parado em frente a ela.

– Tava procurando você, vem pra cá! – gritou Miguel.

Era Miguel. Concluiu que era Miguel e que já possuía um Renan, um Victor, um Hugo, uma Nayara, um Lucas…e o dele, era Miguel.

Olhou para a placa antes de ir. Ainda deu tempo de ler o nome do pintor logo após da frase “Queijo, doces e algo mais”.

Seu nome era O Eterno.

Renan Gomes

O manauara-mineiro Renan, o sexto convidado nesta série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™.

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