O estrangeiro

Foto “O estrangeiro”: Alysson Tato

*Para Alysson

Vez ou outra percebo-me invejando a liberdade dos pássaros. Em suas asas, carregam a maravilhosa possibilidade de se deslocar de um lugar a outro sem as restrições de tempo e espaço que eu, limitado, encontro. Em alguns momentos da vida, eu trocaria todas as minhas boas dádivas por apenas um par de asas. Para, com elas, alcançar um outro nível de liberdade.

Liberdade para fugir das atrocidades do cotidiado. Liberdade para ir para bem longe da fumaça que me impede de respirar e ver, de refletir, de perceber alguma beleza na vida.

Apesar de ser bastante urbano, há momentos em que a vontade é a de poder voar para longe dos carros, do vazio dúbio da multidão, da corrida desenfreada contra o tempo… E apenas pousar na distância de tudo isso. Pousar e repousar junto a águas tranquilas, e apenas observar. E, assim, absorver toda a paz e a beleza da Criação.

Na poesia de outras vozes, “eu só quero a calmaria de um lugar em que sopra o vento da paz, me guiando às águas tranquilas…” Um lugar onde se pode esperar, mesmo sem se ter certeza daquilo ou daquele que se espera. Quero encontrar esse lugar…

Não tenho certeza se os pássaros o encontram, mas invejo a possibilidade ímpar que têm de buscá-lo, voando contra o tempo, contra o vento. Pousando, avaliando, partindo… Carregando nas asas a chance de retomar o voo sempre que necessário – ou, o que é melhor, apenas quando bate o desejo, a vontade. E, nos trajetos desenhados nos ares, perceber-se como estrangeiro a cada pouso, a cada visita a um lugar antes desconhecido.

A despeito de não ter asas, já experimento um pouco desta sensação: ser estrangeiro. A ‘unicidade’ da minha alma quase sempre me impede de partilhar da sensação de ser parte de algo. Frequentemente, percebo a fraqueza da composição da minha identidade. Não sei me definir, nem mesmo quero. Só desejo a liberdade de, por sentir-me sempre um estrangeiro, tal qual os pássaros poder me deslocar com rapidez e facilidade. Voar para longe de tudo aquilo que me faz sentir que sou tão – essencialmente – só!

Quero calmaria, quero distância, quero voar. Não para encontrar algum lugar em que eu me sinta parte, acolhido. Mas apenas para poder vivenciar a liberdade de sentir-me estrangeiro a cada momento em um novo lugar.

E… talvez… quem sabe… dessa forma… encontrar o meu lugar. Sublime.

3 respostas em “O estrangeiro

  1. entendo perfeitamente os seus sentimentos… e seu texto me fez lembrar uma frase que ouvi na boca de um personagem incrível de um dos meus seriados favoritos: “eu gosto de pássaros porque eles podem voar quando as coisas ficam loucas, eu acho”

  2. Pingback: Sobre a necessidade de viver | contradição™

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