[o sonho]

Ilustração: Kleber Bassa

Tive um sonho. Sonhei que estava andando de mãos dadas com um amigo! Caminhávamos por uma longa trilha de folhas secas, entre árvores baixas, próximos a um lago. Era final de tarde, e um vento frio fazia meus braços se arrepiarem, mas eu realmente não me importava. Estava feliz!

A proximidade da noite tornava as coisas à minha volta cada vez mais desfocadas, mas ainda podia observar a beleza do parque onde nos encontrávamos. Caminhamos mais alguns minutos e finalmente nos sentamos em um banco de concreto de frente para o lago, com o sol a nossas costas. O céu limpo de nuvens já mostrava os primeiros sinais da noite e uma lua tímida já começava a despontar.

Eu sorri e fechei meus olhos. Mesmo assim podia senti-lo ao meu lado. Sua presença transmitia uma tranquilidade. Perto dele me sentia protegido. Vagarosamente encostei minha cabeça em seu ombro e me deixei ficar. Ele não se movia. Eu mal sentia sua respiração, mas apesar disso sabia que ele estava ali, comigo, em sua totalidade.

Depois de alguns minutos, o frio se intensificou e um calafrio trespassou meu corpo. Eu o senti se movimentar. Me endireitei no banco, e ele passou o braço ao meu redor e aconchegou-me a si, aquecendo-me com seu próprio corpo.

O sol se fora e o céu estrelado iluminava o lago tranquilo a nossa frente! Estrelas por toda a parte me fizeram lembrar de uma brincadeira da minha juventude. Lembrei de amigos, bons amigos que tive e com quem compartilhei essa brincadeira e meu peito se encheu de saudade. Era um sentimento tão bom. Preenchia a minha mente de lembranças, doces lembranças, imagens suaves de momentos alegres.

Abruptamente, levantei-me, deixando-o sentado a me observar, e aproximei-me do lago. Agachei na beirada e olhei meu rosto refletido na água. Apesar de escuro, podia observar meu rosto envelhecido pelos anos. As rugas profundas nos cantos dos olhos e os cabelos brancos que balançavam com o vento. Estavam meio compridos, caindo sobre os olhos. Eu os afastei com a mão e continuei a lembrar. Cada marca em meu rosto refletia um ano de vida. Sentei-me na grama e chorei. Eram lágrimas quentes e sentidas!

Lembrei-me dos meus pais e meu coração se apertou. Havia feito tudo e ainda sim os decepcionei. Uma amargura encheu meu peito e imagino que minha expressão se enfureceu. Quando percebi, o meu choro evoluíra para um soluçar angustiado, mas baixo. Nesse instante eu finalmente o senti se aproximar de mim. Ele abaixou, me abraçou por trás durante alguns segundos, e me erguendo sussurrou:

– Acabou! Eu voltei para você!

Me deixei levar por ele. Não paramos mais no banco, mas caminhamos calmamente seguindo o caminho de volta, observando os movimentos noturnos das árvores e o som constante dos grilos, que tornava a noite mais densa. Ele tinha o braço sobre meus ombros.

Quando finalmente chegamos na entrada do parque, olhei para trás, e ainda com o gosto salgado das lágrimas nos lábios, eu vi a paisagem aos poucos se apagar. Olhando para ele, disse muito mais baixo do que esperava:

– Estou tão cansado!

Ele tomou minhas mãos e vi seu rosto sorridente. Tudo ao nosso redor não passava de um borrão para mim, mas seu rosto continuava claro e definido.

– Agora você vai descansar em mim.

E ao ouvir essa palavras, fechei meus olhos mais uma vez e senti meu corpo flutuar.

André Gonçalves

Ou apenas Andy, o terceiro convidado nesta série de publicações do aniversário de 6 anos do contradição™. Ele também escreve em seu blog pessoal kEbranDo a rOtiNa.

2 respostas em “[o sonho]

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