Aquilo que tem valor

Foto: Rafael Rocha

Não sou ligado a datas. Certo é que tenho facilidade para me lembrar delas, mas o importante, na verdade, é que não devoto a elas grande valor. Reconheço, até certo ponto, o papel dos ritos na hora de nos trazer à memória lembranças, mas considero que depender apenas de datas fixas para lembrar aquilo que é especial soa um tanto falso.

Por isso, nas coisas da vida, dou especial atenção ao percurso, ao como se caminha, e não apenas ao “como e onde se quer chegar”.

Alguns dizem por aí que “o importante não é como começa, é como termina”. Pra mim, essa é uma afirmação tola. O importante, na verdade, é como se caminha. Início e fim são dois pontos isolados na trajetória. A maior parte da vida se dá no caminho, na trilha que se percorre, rumo a nem sempre se sabe onde.

Dessa forma, mesmo tendo uma memória boa o suficiente para saber que dia as coisas começaram, prefiro me ater ao como elas se desenvolveram até então. Meu significado, meu sentido, meu amor, minha paixão… Tudo isso coloco no percurso, na estrada.

É por isso que presentear é algo que tem bastante significado pra mim. É uma coisa que me dá prazer. Ver algo que me lembra determinada pessoa, aliar o presente ao percurso que trilhamos juntos, comprar e entregar. Simples assim. Nada é mais prazeroso que ver, no olhar do outro, a resposta. A gratidão por saber que o que se comemora não é a data, um começo, um fim, mas aquilo que se dá a cada dia, na jornada.

Da mesma forma que um ano pode significar muita coisa, pode não significar nada. Vem daí o fato de eu me considerar velho, coisa que muitos não entendem. Vivo em um ano experiências que muita gente não vive em dez. Conheço sabores, prazeres e sensações que a maioria não consegue se não parar pra contar o tempo. Ah, o tempo… Coisa instável, efêmera, que tanto nos confunde.

Essa é uma das razões por que tento me esquecer do tempo e me apegar ao sabor da caminhada. E, nos momentos em que ela se torna cansativa, posso me lembrar do tanto de coisas que já vi(vi), do montante de sensações que já experimentei e que, em mim, se acumulam. É bom olhar para trás e não precisar do calendário para provar a verdade daquilo que vivo.

A verdade não está nas datas, está na caminhada. E nos corações daqueles que conseguem entender que, para quem reverencia o caminho, um dia é como um ano e um ano é como mil. E que o hoje é sempre a parte mais importante da trajetória. É apenas no hoje que podemos comemorar e reverenciar aquilo que existe.

O ontem já se foi, o amanhã ainda não existe e, se chegar, já não mais será. A melhor e mais importante data para comemorar, agradecer e reverenciar o prazer da caminhada é sempre hoje! Com ou sem presentes. Com períodos considerados humanamente completos ou não. Em datas tidas como especiais ou em datas feitas especiais. O que importa, na verdade, é… Ah, quem vive sempre sabe o que realmente tem valor!

2 respostas em “Aquilo que tem valor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s