Por que eu escrevo

Há alguns dias, postei no meu perfil do Facebook a seguinte frase: “Em nossos dias, há um consenso social contra a tristeza. Ser triste é imoral, quase um crime, absurdo, inaceitável. É preciso ser feliz!” Ela havia sido escrita há cerca de um mês, como introdução de um texto que eu pretendia escrever sobre a “tristeza”, mas que não consegui desenvolver. Por isso, decidi postar apenas a frase. Minha atitude foi parecida com a de Rubem Alves: ele tinha um caderno de anotações que pretendia desenvolver. Em 2008, decidiu publicá-las no livro “Ostra feliz não faz pérola”, da forma em que se encontravam, por temer não ter tempo para desenvolver as ideias e elas se perderem no tempo.

A ideia central do livro do Rubem é a da dor como propiciadora de criatividade, movimento inerente ao processo de criação daquilo que é belo, aquilo que é arte. Assim como a ostra, que produz a pérola no processo de se proteger contra os grãos de areia que a ferem, o artista só produziria beleza por meio da sua própria dor. Daí a certeza: os maiores artistas são pessoas tristes.

Não sei se é regra, mas vivo para saber, no corpo e na alma, dessa experiência. Em 2012, tenho escrito bem mais do que em 2011, que, de nenhuma forma coincidentemente, foi um ano muito melhor. O ano passado me trouxe algumas dores muitíssimo fortes, mas, a despeito delas, conseguiu ser um dos melhores anos da minha história, se não o melhor. Já 2012, ah, 2012 já começou carregado de dor, de amargura, de incerteza, de estreiteza. Caminhos que, de repente, se me tornaram tortuosos, íngremes, estreitos.

A minha forma de lidar com isso é escrever. Quanto mais estreito o caminho se torna, menos bagagem eu consigo carregar. Nesse movimento de abandono, resta-me a força suficiente para manter comigo o papel e a caneta. E, assim, escrever. Colocar a dor nas palavras, numa tentativa talvez desesperada de transferir a dor que me dilacera para o papel. Que ela o rasgue, assim como rasga o meu coração.

Muitos têm reclamado, comentado e se preocupado com a minha tristeza. Algumas dessas intervenções, confesso, têm o poder apenas de me causar mais tristeza. Alguns dizem que sofrem ao me ler, que têm medo de mim. E eu começo a me questionar: é justo que, alegando amor, alguns me peçam para evitar a única alternativa a que recorro na tentativa de amenizar a minha dor? Se eu falasse, seriam obrigados a me ouvir. Quando escrevo, a leitura é opção, às vezes até convite. Mas mesmo o convite é democrático: pode ser aceito ou não.

Alguns não entendem as minhas linhas, e falam, e machucam. Outros compreendem a minha dor, e falam, e me tocam. Outros, ao compreendê-la, apenas se calam, em reverência. Esses tocam-me mais ainda, mesmo que contraditoriamente eu nem sempre os (re)conheça! Mas há ainda um outro grupo: o daqueles que batem, com força, de forma cruel. A esses, deixo um recado:

Podem bater! Estou aqui pra isso. Mais forte do que NUNCA! Só pra reforçar: a despeito de todas as dores e pancadas que a vida me traz, agradeço a Aba, pelo Infinito Amor que insiste em me alcançar…

7 respostas em “Por que eu escrevo

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