Sempre fui velho…

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Ensaio sobre as mãos, de Alisson Santos

As pessoas se assustam quando digo que sou velho! O que é compreensível. Tenho apenas 22 anos (de acordo com o calendário gregoriano) e, a partir da visão cronológica do tempo, é impossível que alguém seja velho com pouco mais de duas décadas de vida. Mas não é que eu me sinta velho. Eu o sou… Certo está o Rubem, quando diz que a velhice nada tem a ver com o tempo medido pelo relógio. Para ele, a verdadeira velhice tem a ver com as batidas do coração. Sendo assim, não resta qualquer dúvida: sou velho! Meu coração já bateu (e ainda bate) demais!

Intensidade! Gosto dessa palavra. Vivo de intensidade em intensidade. Pouco tempo resta para a calmaria. Não há descanso… Os dicionários dizem que há intensidade onde existe muita atividade. E, para mim, a velhice é a fase da vida em que a atividade mais se manifesta. Outra vez só é possível entender o que digo a partir da realidade do coração. Não falo de movimento do corpo, mas de um rebuliço interno. Movimento provocado pela saudade. Movimento que se dá na memória e no coração.

Na velhice a saudade se manifesta. Trazendo de longe os muitos mundos que ficaram para trás. Lugares. Pessoas. Histórias… Mistura que transforma o passado em presente. Em meus 22 anos, já carrego muitos mundos dentro de mim. Passado que me visita diariamente. Intensidade que machuca, mas que também é bela. Lembro que quando eu tinha 17 anos, idade do Wendell, a intensidade já me visitava. Não experimentei a ‘pequenidade’ que ele, hoje, vive… Até mesmo as lembranças da infância me revelam: nasci velho!

Hoje, quando eu e Raquel voltávamos da nossa caminhada matinal, paramos para uma breve conversa com o ‘seu’ Manoel, como fazemos todos os dias. Ele, que tem 87 anos, conversava com um amigo de 79. Momento indescritível e delicioso. Minha alma foi visitada pela saudade dos meus dois avôs… Meus amigos! Ah, como eu gosto dos velhos (assim como o Rubem, detesto a palavra idoso).

Ainda há quem pense que o reconhecimento da minha velhice seja ruim. Acham que é um problema sério eu ser velho aos 22 anos. Tolos… Ignoram a beleza que há na velhice. Ontem recomendaram-me procurar a ajuda de um psicanalista. Querem obrigar-me a ser jovem. Apenas ri. E fui compreensivo. Como a velhice da alma não deixa marcas físicas, raros são os que percebem que nasci assim. O amor que tenho pela Vida confunde quem apenas compreende as batidas do relógio. À pessoa que me recomendou procurar ajuda na psicanálise, receitei que leia poesia! Talvez ela entenda a beleza da velhice. Talvez compreenda que “todos os poetas já nascem velhos!” (Rubem Alves)

*Nota: texto escrito sob inspiração da leitura de As cores do crepúsculo – a estética do envelhecer (Papirus), de Rubem Alves.

5 respostas em “Sempre fui velho…

  1. isso não foi um comentário, leandrofoi uma pergunta![pra não perder o hábito de corrigir, rá xD]resposta:não. na verdade, tenho 22 anos, alguns meses e ainda alguns dias, mas tenho preguiça de computar:)

  2. "Tolos… Ignoram a beleza que há na velhice. Ontem recomendaram-me procurar a ajuda de um psicanalista. Querem obrigar-me a ser jovem. Apenas ri."E eu estou dando gargalhadas até agora…XD

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