Observador

Conheço duas formas de olhar. A primeira consegue passar pela vida e nada ver, enquanto a outra encontra dificuldade em não perceber. Visões diferentes. Dinâmicas opostas. O primeiro tipo de olhar é displicente e apenas esbarra nas situações, vê meras ocorrências, coisas sem relevância e sem sentido. O segundo, em tudo enxerga a possibilidade de comunhão. O olhar displicente não consegue ir além. É fácil de ser encontrado e, freqüentemente, considera-se suficiente. É a antítese da outra forma de olhar, que gosta de confluências, altera-se, aceita o novo, o não-experimentado. Assim como um rio que, através das águas de seus afluentes, sabe-se mais intenso e mais renovado quando não está só.

A vida é assim: construída através do olhar. Ou não, pois olhar que não consegue ver além nada constrói. Antes, prefere esconder aquilo que possui (se é que algo possui) a arriscar-se na experiência da comunhão. É olhar que não conflui, nem flui, porque não é rio. É bem mais próximo de uma poça d’água, que resiste ao convite do movimento e evapora quando atingida pelos raios do sol. Olhar que vê, mas não observa.

Histórias nascem do movimento do olhar. Precisam de ritmo e cadência, elementos que moram na incapacidade de ser estável. Engana-se quem acha que as melhores histórias residem na capacidade de inventar. Besteira é procurá-las no mistério. Elas não estão no oculto. Sua casa é o mundo. E as portas – escancaradas – anseiam por um visitante-observador que as revele para quem não as pode (ou não as quer) perceber.

Seria injusto omitir uma verdade: tão raros são os que se aventuram na profundidade do olhar que, após experimentar a primeira história, as palavras não mais os deixam parar. Não há escolha possível a não ser lançar-se à vida, à procura de outros olhares, novas confluências, elevadas percepções. A esse grupo de pessoas, resolvi dar o nome de observadores. Sua reação natural aos estímulos da vida é observar. Não é uma opção. Nem mesmo uma profissão. É vocação. Eu sou um dos que nasceu refém dessa vocação. E, desde que descobri conscientemente o prazer de olhar, não consigo mais parar. Sou assim: alegremente rendido, submisso e entregue à minha forma de olhar. Sou um contador de histórias. Um observador. Mas, se preferir, há também quem diga que sou jornalista…

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