Amizades (não)líquidas

“Tudo o que é humano precisa ser relativizado, porque eu não posso ser absoluto”. Foi essa frase, dita pelo padre Fábio de Melo, que me fez parar de trocar de canal, enquanto assistia um pouco de televisão neste sábado à noite. Nunca havia assistido a um programa da Canção Nova. Não gosto de programas religiosos. Mas essa declaração me chamou a atenção e me fez acompanhar, por quase uma hora, o programa “Direção Espiritual”.

A frase que citei anteriormente fez parte da resposta a uma pergunta de uma telespectadora assídua do programa do padre a respeito da importância da igreja – enquanto instituição terrena e humana. Também teria considerações a esse respeito, mas não é isso que me motiva a escrever. Afinal, para esse tipo de discussão, não resta em mim qualquer disposição. Cito sempre a afirmação retirada de um célebre texto do meu amigo-irmão de caminhada Ricardo Gondim: “estou cansado”.

Não posso deixar de demonstrar admiração pela resposta dada pelo padre à questão. Ele conseguiu separar as dimensões espiritual e social da igreja, reconhecendo os erros da instituição e, também, os seus, ao admitir a própria incapacidade de ser absoluto. Ou seja, o ser humano é relativo, incompleto, cheio de falhas e erros. Eu disse certa vez que estava “feliz por ser em paz no Absoluto, apesar da minha relatividade”. Pensamos da mesma forma.

Mas o que mais me agradou veio em seguida. O padre passou a outra questão: dessa vez, a pergunta despertou totalmente o meu interesse, pois veio de encontro àquilo que mais me motiva à reflexão: o relacionamento entre as pessoas. A dúvida também é minha: por que temos tanto medo, hoje em dia, da instabilidade dos nossos relacionamentos?

Fábio começou a responder apontando a evolução da filosofia ao longo dos séculos. Por fim, ressaltou que a grande questão da filosofia na atualidade é a falta de um ponto de discussão comum. Na pós-modernidade, as relações se tornaram líquidas, passageiras. Citando Karl Marx (“Tudo que é sólido de desmancha no ar”) e o sociólogo polonês Zigmunt Bauman (autor de “Amor Líquido”, entre outros livros), o padre afirmou que a falta de algo que nos dê solidez afeta diretamente as nossas amizades, tornando-as instáveis e passageiras, vindo daí o medo que nos afeta a todo o momento.

Concordei, mais uma vez, quando afirmou que “o mundo virtual é vazio”. Pouco antes de ligar a TV, eu havia dito a um amigo – no MSN – a impossibilidade que vejo no meio virtual. Não acredito em amizades virtuais. Acredito na internet como um meio mais fácil – mas, em contrapartida, também muito mais sem-graça – de mantermos contato com os amigos que temos. Segundo o padre, na internet a pessoa tem a ilusão de possuir muitas possibilidades, mas está sozinha. Assim como ele, penso que podemos ter contatos virtuais, mas não amigos virtuais. A amizade vem depois que a gente já chorou junto, depois que a gente se conhece. O padre Fábio também ressaltou que essas “amizades virtuais” carregam a característica da pós-modernidade: são líquidas. “Os vínculos são temporários. A falta de proximidade faz com que os laços se percam no tempo”, afirmou.

Como toda crítica deve vir acompanhada de uma proposta de mudança, ele deu a dica. “É preciso que gastemos mais tempo cuidando das nossas relações, dos nossos amigos”, ressaltou o padre. E cuidar de amigos, exige dedicação, esforço, responsabilidade. Infelizmente a maioria das pessoas não entende isso mais. Que amizade “é dar as mãos, é dar de si além do próprio gesto. E descobrir feliz que o Amor esconde outro universo” (trecho da canção Vida, música-título do novo CD do padre, lançado pela SomLivre).

Assino embaixo.

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