Lágrimas

– Meditações sobre o choro após a morte –

Após a morte há dois tipos de lágrimas: de saudade e de arrependimento. As primeiras são doces. Denotam lembranças de bons momentos vividos ao lado da pessoa amada – que se foi – e que não mais se repetirão. Mostram que há laços tecidos por amor e cumplicidade.

O segundo tipo – de arrependimento – não é nada doce. Pelo contrário, são lágrimas essencialmente amargas. Mostram dor e sofrimento, lembranças tristes dos momentos e do amor que poderiam ter sido usufruídos. Evidenciam não a saudade do que foi vivido, mas justamente daquilo que foi perdido, desperdiçado.

Não creio que exista nada mais importante na vida que o Amor, sentimento que parte de alguém que decide amar em direção a um outro ser, nem sempre – ou quase nunca – merecedor. Amor é sentimento unilateral. Não depende de retorno para sobreviver. É a antítese da paixão, que só continua se cultivada. Daí a dificuldade de encontrar o Amor. Sua raridade também faz com que essa forma de viver – muito mais que um mero sentimento – não seja sempre aproveitada. Há pessoas que não sabem ser amadas. E, pior, não sabem responder ao Amor.

Aqueles que têm maior dificuldade em ser amados e de dar uma resposta coerente ao Amor são também os que mais choram amargamente quando perdem a fonte deste Amor. Sofrem com lembranças da presença negada, da palavra omitida, da manifestação refreada, do sentimento escondido, da prioridade dada ao não-essencial.

Quem usufrui do Amor também chora com a morte. Não pela dor do que não foi aproveitado, mas pela saudade já sentida daquilo que teve por certo tempo e não mais terá. Chora porque a presença nunca negada se foi. Porque a palavra nunca omitida se calou. Porque a manifestação explícita não mais está. Porque o sentimento escancarado foi interrompido. Porque o essencial da vida, vivido a dois, agora tem que ser tocado apenas por um – aquele que ainda vive.

Meu avô paterno morreu no dia 20 de agosto de 2008. Desde a partida, tenho chorado: lágrimas de saudade. No entanto, lágrimas tristes também têm saído dos meus olhos. Choro por saber que, quando eu partir, muitos chorarão por não ter aproveitado o Amor que tenho oferecido.

Mas ainda estou aqui. Não sei por quanto tempo. O Amor ainda flui. Não sei até quando. Quem quiser, pode aproveitar. Ficarei muito mais feliz quando tiver certeza que, quando eu partir, o sabor adocicado das lágrimas de muitos conseguirá suprimir o dissabor do choro amargo e sofrido.

 

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