O Grande Jogo

Política, Cultura e Idéias (na visão de Demétrio Magnoli) em Tempos de Barbárie.

Fernando Henrique Cardoso diz que “num ambiente cultural e político marcado em geral pelo interesseiro, dogmático ou preguiçoso ‘silêncio dos intelectuais’, de um lado, e pela gratuidade inculta de ataques pessoais, de outro, os textos de Magnoli soam como uma bem-vinda nota dissonante”. Pode-se concordar ou discordar de Magnoli, mas suas análises devem ser reconhecidas por uma marcante característica: a coragem. Magnoli é corajoso ao abordar assuntos que envolvem tanto a política mundial, quanto a nacional. Sua posição é sempre demarcada, clara, e seus argumentos têm o poder de tornar a leitura de seus artigos extremamente agradável, instigante, mesmo quando não se compartilha da mesma posição que o autor. Daí, pode-se imaginar, vem a classificação de “nota dissonante” dada por Fernando Henrique Cardoso aos seus textos.

A “nova ordem” mundial, alardeada e defendida pelos norte-americanos, já não existe como pensada por eles. A análise de Magnoli apresenta a “guerra ao terror” como uma tentativa norte-americana de coordenar e dirigir esta “nova ordem”, tornando seus valores como “nossos valores” na defesa da liberdade. Mas, esta liberdade suprime a liberdade dos mais fracos em prol da liberdade da “Espada de Deus”. Afinal, ela “não deve explicações aos poderes terrenos” na guerra contra inimigos sempre difusos.

Estas ações norte-americanas abrem espaço à ampliação da utilização da violência armada por outros Estados. Israel propaga o “terror de Estado”, enquanto os “homens-bomba” se matam por ideais fundamentalistas. China e Cuba são apenas mais dois exemplos, de muitos que poderiam ser citados, de desrespeito aos direitos humanos. Todas estas situações parecem legitimar as ações nazistas de Hitler no passado. A diferença existe, claro, mas é difícil de se encontrar.

A União Européia se organiza para tentar limitar o poder e a influência desproporcionais da única hiperpotência, os “defensores da liberdade”, ou Estados Unidos da América. O Protocolo de Kyoto separa os dois lados. Como bem explicado por Magnoli, onde os europeus viram a oportunidade os norte-americanos viram o custo. Os países pobres parecem esquecidos. A África, vitimada pela AIDS e pelas freqüentes brigas etnotribais, esquecida pelas potências, é só mais um custo. Mas, vira oportunidade quando há petróleo, diamantes ou bens naturais para se extrair de lá.

O mundo globalizado é o mundo das potências, posto que o Brasil almeja alcançar a todo custo, mesmo que tenha que negar seus valores e história, ajudando no estabelecimento de governos ilegais, como no Haiti. Magnoli resume esta situação ao dizer que “liderança não se proclama, se exercita”. Há exceções, é claro: Bush a exercita e pode se gabar proclamando-a. No entanto, a realidade brasileira é outra. Apesar do ideal de “nação como família”, proposto por Lula e que, para Magnoli, rompe com o contrato republicano, o país é marcado por divisões. Dividem o Brasil em raças, separam a favela das cidades, como um submundo perigoso e prejudicial, que é tratado como Bush trata seus inimigos externos, com extrema violência. Porém, o poder paralelo, com base estabelecida nas favelas brasileiras, também tem referências. Sua semelhança com o fundamentalismo islâmico está no fato de que quanto mais violento e ilegal o combate maior seu crescimento e força. Ambos crescem, desenvolvem, mas, não há expectativa de sua morte.

Magnoli acerta em muitos prognósticos: estamos em tempo de barbárie. A crise é real. Mas, se ela separa dois períodos de estabilidade como o autor acredita, torna-se complicado encontrar, no passado, a estabilidade anterior à crise em que nos encontramos. Estabelecer prognósticos futuros, então, é mais complicado. Se chegaremos a uma estabilidade, ela está distante de poder ser claramente vista. Neste caso, Sam Goldwyn diria “nunca profetize, especialmente sobre o futuro”.

Uma resposta em “O Grande Jogo

  1. Putz… Muito bom mesmo. “liderança não se proclama, se exercita”. Algo muito interessante. Para alguém como eu que dificilmente se liga em assuntos como esse, é sempre bom ler textos como esse e aproveitar para rever alguns conceitos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s