Sobre a partida

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Foto: Alisson Santos

​eu, que sempre me soube sozinho,
na vida e no mundo
de tanto ouvir sua voz
dizendo-me que sempre estaria lá
bem perto, comigo
venci a incredulidade
enfim,  acreditei

tive sono, muito sono,
e dormi em paz

quando acordei,
você não estava mais lá
já havia partido
não por um momento
mas para sempre
aquele mesmo sempre
que tanto havia me prometido

Sobre aquilo que é abusivo

Conheci o abuso muito cedo. Em uma das suas piores formas. Ainda criança, aos cinco anos de idade, quando uma pessoa que deveria ter entre 18 e 20 anos começou a se aproveitar de mim. Parte de mim resolveu apagar os detalhes, mas acredito que tal situação se estendeu pelo menos até os meus oito anos. Hoje, quando olho para trás e me permito lembrar daquela época, o que mais dói é perceber que, mesmo sendo vítima de algo hediondo, aquela criança que eu era, abusada, sentia-se amada pelo abusador. Achava que aquilo era amor.

“Pois os demônios que eu crio, só eu posso calá-los.” (Foto: Alisson Santos)

Minha segunda experiência mais marcante de abuso começou alguns anos mais tarde. Por volta dos meus 11 anos de idade, em igrejas evangélicas, quando comecei a ser apresentado a um deus demoníaco. Vingativo, cruel. Um deus no qual dificilmente alguém conseguiria enxergar algum amor. Um deus que muitos familiares meus serviam àquela época e ainda hoje servem. Um deus do qual quero distância, que me tirou grande parte do prazer de uma fase em que a vida deveria ser leve. E não foi. Muitas vezes, por atitudes e intervenções de parentes, esse medo se acentuou. Houve uma época de minha vida, que se estendeu por alguns longuíssimos anos, em que eu tinha tanto medo de deus que passava grande parte dos meus dias pedindo perdão por qualquer coisa que eu tivesse feito ou, pior, pensado. Nunca cheguei a contar, mas com certeza ultrapassava facilmente os 70 perdões multiplicados por 7 a cada semana.

O medo se acentuou consideravelmente na puberdade, quando me descobri gay. Como se eu já não fosse pecador suficiente, eu ainda era “bicha”, “viado”, “sodomita”, “nojento”, “desgosto”, “vergonha”, “pecador”, “merecedor da morte”. Isso por ser alguém que não tinha ideia do que estava acontecendo comigo. Sei lá quantas vezes ouvi, calado, de pessoas que eu amava e admirava que eu iria para o inferno. Sem contar o ódio e os xingamentos que vinham junto. Como se já não bastasse a pressão social, havia ainda a pressão interna, vinda daqueles que te ensinam ser “família”. E o pior: proferiam o ódio comigo ali, ao lado, calado, sem coragem para me reconhecer como alvo daquelas palavras.

Esse abuso, proveniente da religião, talvez seja o que mais me marcou. Entre os 18 e os 20 anos, quando finalmente comecei a entender quem eu era, percebi que era chegada a hora de me afastar. De parentes e de “amigos” oriundos de minhas experiências com a religião. Não cabia a mim lutar ou tentar ser aceito por pessoas que odiavam aquilo que eu era. Por quê? Por alguma biologia que nos unia? Óbvio que eu não faria isso. Não fiz. E, claro, jamais farei. Amor eu quero daqueles que querem me amar, sem nenhum “mas…”. Se um heterossexual não precisa lutar por aceitação…

Nessa fase, ganhei três amigos, que se tornaram irmãos, e que ultrapassam facilmente laços biológicos tão frágeis: André, Rodrigo e Lucas. Tornaram-se, cada um a seu modo, família para mim. E, com eles, até hoje, aprendo aquilo que verdadeiramente é amor. Sem sentir-me abusado.

Ainda assim, agraciado por amores amigos que nunca, nem de longe, mereci, e que, desde então, têm cuidado de mim, aquilo que é abusivo voltou a me visitar. Ainda marcado por alguns valores adquiridos na experiência religiosa cristã, envolvi-me em alguns relacionamentos afetivos onde colocava o outro, quando não num pedestal, sempre à frente de mim. Suas vontades e necessidades, seus desejos, seu bem-estar. Deixei-me, muitas vezes, ser moldado, externamente, por aquilo que esperavam de mim e que diziam ser “ideal”, “mais bonito” ou “melhor para mim”.

Aceitei muita coisa. Passei a ver-me como inferior, pior. Muitas vezes mau. Tantas vezes cruel. Alguém para quem a única solução possível era morrer. Tentei amar. Não sei se soube. Não sei nem se sei amar. Mas sei que nunca consegui me sentir amado. Sempre senti que as coisas simples eram um desafio, um sacrifício, para mim. Talvez pelo efeito dessas experiências abusivas que me visitaram desde quando eu nem era capaz de as entender.

Mas hoje eu vejo. E enxergo. E sei…

E me sei amado pelos meus pais, Eustáquio e Du, pelas minhas irmãs, Raquel e Flávia, por meus três amigos-irmãos, André, Rodrigo e Lucas, e por mais uns tantos amigos e afetos com os quais a Vida tem me agraciado… E tais amores, no momento, terão que me bastar!

Hoje, mesmo não sendo mais cristão, ainda vejo no Cristo descrito nos evangelhos do livro sagrado dos cristãos um exemplo a ser copiado e seguido. No entanto, confesso, eu não pretendo sequer tentar amar como ele orientou. Não cederei a outra face a quem me atingir. Se levar um tapa, retribuirei com um murro. Se me fizerem o mal, certamente não devolverei nenhum bem.

Aquilo que é abusivo nos atinge e toma conta das nossas vidas sem que, muitas vezes, saibamos. Ocorre em nossas famílias, em relacionamentos, em nossos trabalhos, no meio acadêmico… E quase sempre só enxergamos muito depois, quando aquilo já se transformou em passado. Não aceitarei mais nenhum abuso calado. O mundo é mau. As pessoas, muitas vezes, são perigosas e cruéis. Por isso, vou sempre reagir. É essa minha forma de seguir vivo… e de ser amado por aqueles que, melhores que eu, são capazes de me aceitar, me abraçar e me ajudar a viver!

Muito ouvi, na religião, que a palavra tem poder. Tem poder para libertar. É por isso que este texto está agora aqui.

Que a liberdade me guie e tome conte dos meus passos.

Seja bem-vindo, 2017!

Sobre a dor que não pode ser partilhada

sem nome (10), foto de Kleber Bassa

sem nome (10), foto de Kleber Bassa

Há dores que não podem ser divididas, partilhadas. Dores que não são externas, que não vêm de fora. Dores que nos compõem, fazem parte de quem somos. São, além de internas, inexplicáveis.

Não podem ser explicadas, não podem ser compreendidas.

Carrego em mim algumas (muitas) dessas dores. Que não posso e nem quero partilhar. São minhas, não quero dividi-las. Por períodos bem longos, elas me impedem de enxergar o mundo que está além delas e, por isso, acabam me afastando dele.

Distante do mundo, percebo-me – o que não é raro – intensa e essencialmente só. Longe de pessoas que, incapazes de respeitar aquilo que não entendem, só sabem oprimir. Sob o pretexto da preocupação, empurram-me em direção ao abismo do qual luto para me afastar.

Afastar-me, então, é apenas mais uma tentativa que emprego no intuito de sobreviver. Nesses momentos, luto para acalmar o turbilhão de pensamentos e dores que me afligem, machucam e confundem. Dores que me cegam!

Tento: reconhecer o que são aqueles que estão ao meu redor. Resisto: (ainda) não quero me entregar. Recuso: não aceito ser oprimido por quem quer que seja. Recolho-me: acompanhado por dores que não consigo explicar.

Há dores, repito, que não podem, ser partilhadas. Nem devem ser.