Sobre a dor que não pode ser partilhada

sem nome (10), foto de Kleber Bassa

sem nome (10), foto de Kleber Bassa

Há dores que não podem ser divididas, partilhadas. Dores que não são externas, que não vêm de fora. Dores que nos compõem, fazem parte de quem somos. São, além de internas, inexplicáveis.

Não podem ser explicadas, não podem ser compreendidas.

Carrego em mim algumas (muitas) dessas dores. Que não posso e nem quero partilhar. São minhas, não quero dividi-las. Por períodos bem longos, elas me impedem de enxergar o mundo que está além delas e, por isso, acabam me afastando dele.

Distante do mundo, percebo-me – o que não é raro – intensa e essencialmente só. Longe de pessoas que, incapazes de respeitar aquilo que não entendem, só sabem oprimir. Sob o pretexto da preocupação, empurram-me em direção ao abismo do qual luto para me afastar.

Afastar-me, então, é apenas mais uma tentativa que emprego no intuito de sobreviver. Nesses momentos, luto para acalmar o turbilhão de pensamentos e dores que me afligem, machucam e confundem. Dores que me cegam!

Tento: reconhecer o que são aqueles que estão ao meu redor. Resisto: (ainda) não quero me entregar. Recuso: não aceito ser oprimido por quem quer que seja. Recolho-me: acompanhado por dores que não consigo explicar.

Há dores, repito, que não podem, ser partilhadas. Nem devem ser.

Sobre a dor (ou 2015)

Em 2015, até a praia ficou cinza...

Em 2015, até a praia ficou cinza…

Escrever é uma das melhores formas que encontrei de lidar com a dor. Tem sido assim desde a minha pré-adolescência, quando comecei a notar o poder – até então latente – que as palavras exerciam sobre mim. A fascinação por elas havia começado bem antes, ainda criança, quando descobri o prazer de ler. Porém, o domínio que as palavras exerciam sobre mim, por meio da escrita, revelou-se apenas alguns anos mais tarde.

Dito isso, certo é que, em 2015, eu deveria ter escrito (bem) mais. Ou, pra ser correto: em 2015, eu deveria ter escrito. Mas não escrevi… Nenhuma expressão da dor em palavras. O que é, no mínimo, estranho. Porque 2015 foi um ano em forma de agosto… Longo, interminável… “O eterno agosto”, escrevi por aí… E ruim, muito ruim.

E hoje, a nove longos dias do fim deste ano horrível, olhando para trás, percebo que talvez 2015 tivesse sido menos pesado se eu apenas houvesse escrito… Mas faltaram-me as palavras. Ou o tempo. Ou a disposição. 

Em 2015, infelizmente, dediquei-me a textos que não me deram prazer, a caminhos tortuosos, dos quais, apesar de necessários, não posso sentir orgulho. Mergulhei em ambientes danosos à alma. Repletos de mesquinhez, onde “tudo é vaidade…” Desperdício(s) de vida, de tempo, de motivação…

Mas, como nem tudo são espinhos, as vivências deste ano me permitiram enxergar, de forma bem mais clara, aquilo e aquele que não quero ser. A pessoa que não quero me tornar. E, a despeito de tanto desgosto, 2015 me permitiu a convivência com algumas maravilhosas pessoas que me carregaram (nos braços, mesmo!) para lugares dos quais eu jamais deveria ter saído. Pessoas que me permitiram enxergar a esperança e me levaram pra mais perto de onde quero estar, pra mais perto daquele que quero ser.

E, na ausência da minha própria escrita, pude me encontrar nas palavras d’Os Arrais, as que antecedem e as que fazem a canção “O Bilhete e o Trovão”:

“Esta é a melodia. A letra que surge quando nada pode ser dito. Quando as palavras não rimam com a vida. Quando as melhores intenções são esmagadas e destruídas. Quando os medos são maiores e mais numerosos que as promessas. Quando as certezas são engolidas num tenebroso mar de incertezas. Quando confrontados com o indivisível, seja a nossa canção, estrofe, ponte e refrão…”

E que 2016 “seja o que está por vir”…

 

Lembranças de um grande homem

Da esquerda para a direita, Márcio, Marcinho, Leila e Caio

Da esquerda para a direita, Márcio, Marcinho, Leila e Caio

Hoje, olhando alguns arquivos antigos, encontrei essa matéria escrita em 2008, como trabalho da graduação em jornalismo. Uma tentativa de perfil com um homem que foi/é referencial para mim e um dos maiores incentivadores que tive na vida: meu tio Márcio, um dos bons que nos deixou muito cedo. Mas que muito aqui deixou… Decidi publicá-la, sem edição, mesmo sabendo que, seis anos depois, mudaria muita coisa no texto (que não é dos melhores). Peço, antecipadamente, perdão pelos deslizes.

Família e determinação são as bases do sucesso de empresário mineiro

Márcio Antônio Silva, 48, estava sentado em sua mesa, em frente a um computador pessoal, lendo alguns e-mails, enquanto conversávamos, dividindo a sua atenção entre a entrevista e o trabalho. Sua empresa, com três anos de idade, fica no bairro Prado, região oeste de Belo Horizonte. Mas é raro encontrá-lo lá. Márcio diz que é importante visitar os clientes. “O relacionamento com os clientes é a base do sucesso de uma empresa”, ressalta o “gestor” da Construsite Brasil, título com o qual prefere ser identificado. Em sua infância, a internet ainda era uma realidade muito distante. Em meio às brincadeiras de rua e às frequentes peladas foi que ele cresceu. O contato com a tecnologia, que hoje é a base de seu trabalho, veio muitos anos mais tarde, por volta dos 32 anos de idade, após muitas outras experiências profissionais. “Meu primeiro emprego foi de chaveiro. Trabalhava pro meu tio”, conta com orgulho. “As crianças de hoje crescem em frente ao computador. Na minha infância eu corria atrás da bola”, lembra Márcio. Apaixonado por futebol, é cruzeirense, assim como seus dois filhos, Caio, 14, e Márcio Vinícius, 19, dos quais fala sempre com muito orgulho e um imenso sorriso no rosto. “Joguei bola até os 14 anos, quando descobri algo melhor, que é mulher”, afirma. Na adolescência, era muito namorador. “Sempre joguei no atacado, nunca no varejo”, brinca. Aos 16 anos conheceu Leila, um ano mais nova. “Só voltei a jogar bola depois de casado”, lembra. Sobre o casamento, Márcio diz que eram tantas garotas em sua cola que foi difícil escolher. “Mas escolhi bem demais”, completa.

Há três anos, quando decidiu largar um emprego estável, onde recebia um salário “confortável”, para investir no sonho de uma empresa de construção e hospedagem de sites, o apoio da família foi crucial. “Tivemos que mudar um pouco o nosso estilo de vida, já que não teríamos mais uma renda certa no fim do mês”, conta sua mulher Leila. “Ele não queria mais trabalhar para os outros”, explica. Casados há mais de 24 anos, ambos dizem que não se arrependem em nenhum momento. O segredo de tanto tempo de união, segundo Márcio, “é aprender calar em muitos momentos”.

Ao falar dos filhos, o orgulho do pai torna-se evidente. “O Caio é um menino acima da média”, afirma. Para ele, o filho caçula, companheiro de Mineirão nos jogos do Cruzeiro, é muito “diferente e inteligente”, além de ter pontos de vista bastante definidos. Márcio Vinícius, o “Marcinho”, cursa Ciências da Computação, serve o Exército e ainda faz manutenção e outros serviços relacionados à computação. “Ele é um cara totalmente centrado e responsável”, conta o pai, orgulhoso. Sobre o Exército, acredita que a experiência vai ajudar na formação do filho, aumentando sua responsabilidade e disciplina. “Depois disso, ele está preparado para ter qualquer chefe na vida”, afirma.

Se, por um lado, o pai coruja orgulha-se ao falar dos filhos, a emoção dos garotos ao falar de Márcio também é visível. “Véi [sic], meu pai é um guerreiro, tá ligado? [sic]. Ele nasceu pobre e subiu na vida”, conta Caio, que não esconde a admiração que sente pelo pai. Devido à falta de tempo, Márcio Vinícius só foi encontrado no celular. “Ele é fundamental pra mim, me instrui, me aconselha”, conta . Para ele, o pai é um exemplo, pela garra, pela determinação, pela vontade e pelos valores que transmite a todos com quem convive. “Ele é meu herói, meu incentivo para correr atrás dos meus sonhos”, completa.

Com a Construsite Brasil já realidade, há dois anos Márcio teve a idéia de um projeto inovador, o site de buscas TodoBH. Voltado para buscas comerciais em Belo Horizonte e na região metropolitana, o serviço filtra os resultados, evitando apontar sites sem relação alguma com o que o usuário precisa. “Eu procurava em alguns sites de busca restaurantes de Belo Horizonte e apareciam coisas que não tinham a ver com o que eu queria”, explica. Foi daí, segundo ele, que surgiu a idéia do site local, que possui mais de cinco mil empresas cadastradas. “Conseguimos tudo isso sem nenhuma campanha de divulgação”, afirma.

Márcio e Leila consideram que a empresa ainda é um bebê. De pequeno porte, eles apostam que os resultados já têm chegado. Frutos de muito trabalho, esforço e dedicação. “Ele é muito determinado, positivo, otimista e contagia a todos”, diz a mulher, que se considera um ponto de equilíbrio na relação, já que, para ela, ele é um pouco precipitado nas decisões. Mesmo assim, ela não tem dúvidas de que o marido acertou na decisão de correr atrás do seu sonho. Que não é recente, lembra Márcio. A vontade de trabalhar com internet surgiu no primeiro contato, em 1992. “Foi amor à primeira vista”, define. Ele já foi vendedor de automóveis e de consórcios, dono de um barzinho na Savassi e, recentemente, professor de um curso de pós-graduação na área de planejamento e marketing. Depois de tantas experiências, Márcio garante que não se arrepende da aposta na Construsite Brasil. E Leila, que topou se casar com ele e morar por mais de sete anos em São Paulo, onde ele se graduou em Ciências Biológicas, também não mostra nenhum desapontamento. “Está valendo muito a pena”, conclui orgulhosa.

Sobre o meu cansaço

Eu, cansado

Eu, cansado

Pior que o meu próprio cansaço é não saber de onde esse cansaço vem. Como lutar contra algo cuja fonte não se conhece? Eis um dos meus dilemas nos dias atuais. A verdade é que não tenho mais nem tentado lutar. O cansaço tomou conta de mim e fez-se um com aquele que sou.

Não é mais um problema externo. Tornou-se existencial. Essencialmente existencial.

Não há um entre os meus intermináveis dias em que não me sinta assim: intensa e extremamente cansado. Sem motivação. Sem ânimo. Sem vontade. De nada. Para nada.

A constatação é clara, até cristalina: preciso de descanso. Urgentemente.

Apenas não sei – ou não tenho – onde nem em Quem descansar.